Ensino superior privado tem mais docentes doutorados que setor público

As instituições de ensino superior privado já têm mais professores doutorados do que as instituições públicas, segundo dados divulgados hoje no portal do Observatório do Ensino Superior Privado (OESP).

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“Pela primeira vez, no ano letivo de 2024/2025, a percentagem de docentes doutorados no privado é de 58% enquanto no público é de 57%”, apontou a coordenadora Observatório lançado pela Associação Portuguesa do Ensino Superior Privado (APESP), sublinhando que estes números têm por base dados disponibilizados pela Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC).

“A percentagem de docentes doutorados no setor público é historicamente superior à do privado, mas quando olhamos para esse indicador ao longo da última década, vemos que tem decrescido no setor público, enquanto no privado tem vindo paulatinamente a subir”, disse Cristina Ventura à Lusa.

Os dados do OESP, que pretende avaliar quem participa no ensino superior, quem assegura e quem o suporta mostram que há cada vez mais alunos no superior, tanto no público como no privado, e cada vez mais professores, segundo números que permitem recuar até ao início do século e que revelam ainda um aumento de qualificações dos docentes que dão aulas no ensino privado.

Cristina Ventura apontou também algumas “fragilidades” do sistema privado, como o facto de ter registado um aumento de alunos que não foi acompanhado por um igual aumento de professores.

“Enquanto no ensino público o ritmo de crescimento de estudantes e docentes foi praticamente proporcional, no privado isso não aconteceu e o aumento de docentes é muito inferior ao de alunos inscritos”, alertou, sublinhando a importância do Observatório para chamar a atenção para desequilíbrios como estes.

O OESP aponta também um “colapso silencioso dos mestrados” na última década. Ao contrário do que aconteceu com as licenciaturas e com os doutoramentos, que viram o número de inscritos crescer mais de 30% em dez anos, os mestrados tiveram um aumento de alunos muito residual.

Entre 2014 e 2024, os estudantes inscritos em licenciaturas passaram de pouco mais de 212 mil para 283 mil (mais 33,4%) e os de doutoramento de quase 20 mil para mais de 26 mil (mais 36,2%), enquanto nos mestrados o crescimento foi de apenas 6%, passando de 113 mil para 120 mil, segundo dados do OESP.

“O ritmo de crescimento dos mestrados abrandou. É uma surpresa esta taxa de crescimento muito inferior, mas aqui estamos a contabilizar os mestrados integrados e de 2.º ciclo”, apontou a especialista, sublinhando que os inscritos no 2.º ciclo cresceram a um ritmo bastante mais acentuado.

A queda registou-se nos mestrados integrados, ou seja, na formação obrigatória para se poder exercer profissão, como Arquitetura ou Medicina Dentária.

Segundo Cristina Ventura, na década anterior, entre 2004 e 2014, com a disseminação de mestrados, a taxa de crescimento tinha sido de 893,9%.

“A percentagem de estudantes que prossegue para mestrado é muito baixa. Nem todos os estudantes que terminam uma licenciatura vão para mestrado. Optam por fazer uma vida profissional, ir à procura de alguma estabilidade e alguns voltam à academia mais tarde para encontrar esse aumento de qualificações”, explicou.

A coordenadora do Observatório aponta algumas hipóteses para deixar de estudar: Alguns não sentem recompensa nessa procura, enquanto outros não conseguem entrar nos cursos “porque o acesso não está facilitado”.

Cristina Ventura aponta culpas também ao mercado de trabalho e aos empregadores que ainda “não reconhecem devidamente o mérito de acréscimo de competências que um mestrado pode trazer ao posto de trabalho”.

A situação económica das famílias continua também a ter impacto na decisão de permanecer no ensino superior, acrescentou, lembrando que os “programas de ação social têm melhorado de ano para ano, mas ainda estão longe de estarem perfeitos”.

O Observatório está também a desenvolver estudos em áreas como as práticas de ação social nas instituições de ensino superior privadas, contributo do setor privado para a capacidade instalada de formação de professores ou a empregabilidade dos seus diplomados.

Na análise dos dados, o que mais surpreendeu Cristina Ventura foi verificar que num contexto de crescimento de “cerca de 30% de alunos na última década, o setor privado cresceu acima dos 60% e o público 24%”.

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