“Não temo nem deixo de temer” que abusos sexuais manchem JMJ, afirma bispo José Ornelas

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, disse hoje que não teme, nem deixa de temer que o relatório sobre abusos sexuais na Igreja Católica possa manchar a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

“Não temo, nem deixo de temer, nem é isso que me preocupa. Preocupa-me é que as coisas sejam tratadas como devem ser tratadas e que, realmente, nos empenhemos por erradicar este problema, não só na Igreja, mas neste país e no mundo, onde realmente é preciso e faz falta”, afirmou José Ornelas.

O também bispo da Diocese de Leiria-Fátima falava aos jornalistas em Fátima (Santarém) à margem do 44.º encontro de hoteleiros e responsáveis de casas religiosas que acolhem peregrinos.

A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja Católica em Portugal iniciou a recolha de testemunhos de vítimas em 11 de janeiro de 2022, tendo validado 512 denúncias das 564 recebidas, o que permitiu a extrapolação para a existência de um número mínimo de 4.815 vítimas nos últimos 72 anos.

Ainda sobre a JMJ, que se realiza em Lisboa entre 01 e 06 de agosto, o bispo frisou que a Igreja Católica “não faz coisas de ter mais este ou aquele efeito”.

“O efeito que nós queremos é resolver o problema dos abusos. Se depois isso traz mais alguém ou dissuade alguém, isso pode acontecer. Agora, o pior era não fazer nada”, declarou.

Questionado se vai ser criado algum serviço para garantir a proteção de crianças, o prelado explicou que o Santuário de Fátima “tem já os seus protocolos próprios, como em todas as instituições que tratam com crianças”.

“Mas, além disso, nós, como já foi anunciado, ao nível da Conferência Episcopal Portuguesa vamos reunir-nos para ver também à luz dos novos conhecimentos e deste estudo que foi feito e também das indicações, conselhos e propostas que fizeram, para ver em que é que nós podemos melhorar o nosso serviço, a nossa atenção, compreensão deste fenómeno, para evitá-lo o mais possível”, adiantou.

O presidente da CEP apontou “formação e prevenção, preparação de pessoas (…) que sejam capazes de ajudar as crianças a defenderem-se e também um alerta social”.

Para José Ornelas, a agitação originada pela divulgação do relatório “chamou a atenção de pessoas”.

“E se feriu e se a gente se sentiu tristes e revoltados com aquilo que vimos e ouvimos não é mau, porque disso espero que saiam atitudes que levem a superar os problemas”, defendeu.

O bispo assinalou ainda que todos crescem na vida quando se procura soluções e “procurar soluções significa também começar por fazer diagnósticos, por reconhecer aquilo que está mal, por mudar, por encontrar caminhos”.

Para o presidente da CEP, como este não é apenas um problema da Igreja, “também não pode ser só resolvido dentro da Igreja”

“Ganhamos todos se, todos aqueles que têm a ver com as crianças, pusemo-nos juntos para que este drama possa ser o mais possível ultrapassado”, acrescentou.

A CEP vai tomar posição sobre o relatório, de quase 500 páginas, numa Assembleia Plenária agendada para 03 de março, em Fátima.

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