21 Fevereiro, 2024

É preciso falar de António Gramsci

O CHEGA completou 4 anos. Ao fim deste tempo é possível distinguir muitas das razões que levaram ao seu aparecimento, estando hoje no centro da arena da política nacional. Surgiu como uma resposta a duas décadas de profunda estagnação económica, como combate à corrupção endémica de um sistema político cada vez mais dependente dos seus vícios, deu voz à noção de que temos um país em que metade trabalha para uma outra metade. O CHEGA foi o primeiro partido a afirmar que o PS não tem votos, tem dependentes e que ao aumentar sistematicamente o número de dependentes, estava a perpetuar-se no poder.  

Por outro lado, por várias vezes, ao longo dos anos, conversei com muitos militantes do partido que me diziam que nunca se tinham sentido representados pelo centro-direita e que sentiam que a esquerda controlava tudo. Se é verdade que ao nível do poder o PS ocupou-o e condicionou-o largamente nos últimos 27 anos, sem interrupções; se é verdade que o PS deu legitimidade à extrema-esquerda, trazendo-a para o centro da governação em 2015, é simultaneamente verdadeiro que do ponto vista cultural, a esquerda tem controlado efetivamente tudo. Isto é, tudo o que seria filmes, literatura, teatro, televisão, escolas e universidades. No entanto, este já não seria um problema exclusivo à realidade portuguesa, mas de todo o mundo ocidental. O estado de espírito dos militantes do CHEGA, confirmava a tese de Roger Scruton que explicava que na segunda metade do século XX, tínhamos deixado a economia aos gestores, a soberania à Europa e a educação aos socialistas.  

Como tal, Portugal seria um caso muito particular, isto porque o poder político e o poder cultural estariam alinhados à esquerda. Os portugueses percebem mais do que ninguém que a cultura influencia a política. É por isso que, não estranho quando um simpatizante do CHEGA diz muitas vezes que até ao aparecimento do partido, sentia-se muitas vezes sozinho. Na lógica do alinhamento entre os poderes políticos e culturais, faz todo o sentido. 

Recentemente, uma dirigente do Bloco de Esquerda deu vivas a um filósofo comunista do século XX, António Gramsci. Os seus escritos deram origem a alguns dos principais problemas da modernidade. António Gramsci compreendia as primeiras falhas da revolução soviética e apresentou como alternativa a tese da hegemonia cultural.  Se Marx acreditava que o poder estaria em controlar os meios de produção, ou seja, numa visão meramente económica e se preciso de forma coerciva, Gramsci pretendia o consentimento de todas as classes da sociedade. O consentimento é a chave para compreender a ideia de hegemonia cultural. Até porque, o consentimento, evitaria a força. Gramsci afastava-se da ideia da coerção de uma classe sobre outra, preferindo uma liderança moral e intelectual. Sendo sobretudo um ideólogo, tornar-se-ia a grande referência intelectual para a esquerda da segunda metade do século XX e princípio do século XXI. 

Praticamente todos os partidos comunistas de índole marxista-leninista foram desaparecendo ao longo dos anos e até neste particular Portugal pode lamentar-se. O PCP será provavelmente o último a desaparecer por completo na Europa. Por outro lado, surgiram partidos de extrema-esquerda muito mais “gramscinianos”, o Bloco de Esquerda em Portugal, o PODEMOS em Espanha, ou o SYRIZA na Grécia. Todos estes gozaram de uma alta exposição mediática, de uma aceitação imediata no meio universitário e de uma institucionalização por parte do establishment.  A vitória de Trump nos Estados Unidos, de Bolsonaro no Brasil, a afirmação do VOX em Espanha ou do CHEGA em Portugal foi, entre muitas outras coisas, o primeiro sinal de contestação claro contra a hegemonia cultural. Foi um momento de rotura. Em relação a quem? A António Gramsci. Se do ponto vista político o CHEGA é chamado a combater democraticamente o PS, do ponto de vista cultural um militante do CHEGA combate António Gramsci e os seus discípulos. Vencer os dois combates será fundamental para o futuro do país. 

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