Portugal entregou 250 mil nacionalidades. Metade dos “novos portugueses” vive no estrangeiro

Portugal deu passaporte a quase um quarto de milhão de estrangeiros em cinco anos — mas mais de metade nunca viveu no país. O fenómeno explica-se sobretudo pela antiga lei dos descendentes de judeus sefarditas, responsável por mais de 100 mil naturalizações feitas “à distância” e agora abolida.

© Folha Nacional

Nos últimos cinco anos, Portugal concedeu nacionalidade a quase um quarto de milhão de estrangeiros — um número que impressiona, mas que esconde um dado politicamente explosivo: 54% dos novos cidadãos portugueses vivem fora do país. Apenas 115.116, de um total de 248.816, residiam efetivamente no território nacional no momento em que receberam o passaporte.

A principal razão para este fenómeno, segundo dados recolhidos pelo Página Um com base no Instituo Nacional de Estatística (INE), foi a lei dos descendentes de judeus sefarditas, criada em 2015 e agora revogada. Entre 2020 e 2024, este regime excecional concedeu 104.802 nacionalidades, 42,1% do total. E, desses, 96% vivem no estrangeiro. A lei permitia que descendentes de comunidades judaicas expulsas de Portugal no século XV adquirissem nacionalidade sem qualquer exigência de residência, ligação económica ou integração social, abrindo as portas a um processo massivo de naturalização extraterritorial.

A via sefardita, inicialmente elogiada como um gesto histórico de reparação, acabou por gerar polémica devido a suspeitas de fraude documental e esquemas de certificação que levaram o Governo a apertar regras em 2022, após investigações envolvendo cidadãos russos e empresários bilionários. A revogação final, votada em outubro, contou com o apoio de PSD, CHEGA, IL, CDS e JPP — e a oposição de PS, PCP, BE, Livre e PAN.

Com esta porta agora fechada, a naturalização por residência reassume o protagonismo. Entre 2020 e 2024, 76.631 pessoas tornaram-se portuguesas após viverem vários anos no país de forma legal, cerca de 30% do total. O número, embora crescente, ainda não recuperou dos efeitos da pandemia, que reduziu fluxos migratórios e atrasou milhares de processos administrativos no SEF, entretanto substituído pela AIMA.

Outro bloco expressivo é o dos menores que recebem nacionalidade por efeito da naturalização dos pais: 17.232 em cinco anos, com 8.034 a viver fora de Portugal, mostrando que a extraterritorialidade não se limitava ao regime sefardita.
Para o CHEGA, estes dados provam que a política de nacionalidade portuguesa foi, durante anos, “um abuso institucionalizado que transformou o passaporte português num produto de exportação”. O partido fala mesmo num “mercado global da nacionalidade” sem supervisão e sem análise de impacto.

Em declarações ao Folha Nacional, André Ventura, Presidente do CHEGA, afirmou: “Portugal tornou-se campeão europeu na entrega de passaportes a pessoas que nunca cá viveram. Isto não é integração, é descontrolo total e irresponsabilidade política.”

Últimas do País

A ministra da Justiça disse hoje que durante este ano vão ser criadas 670 vagas nas prisões, após uma reorganização dos estabelecimentos prisionais, uma vez que no ano passado se registou um aumento de mais de 700 presos.
Um professor de 38 anos foi detido na segunda-feira por ser suspeito de crimes de abuso sexual de crianças, em contexto escolar, contra um menor de 12 anos com perturbação neurológica permanente, informou hoje a Polícia Judiciária (PJ).
O Sindicato dos Médicos da Zona Sul revelou, esta terça-feira, que a "situação crítica" vivida nas urgências do Hospital Amadora-Sintra de sexta-feira para sábado levou à demissão da chefe e da subchefe da equipa da Urgência Geral.
A Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) suspendeu 11 estabelecimentos comerciais "por violação dos deveres gerais de atividade" e instaurou um processo-crime por géneros alimentícios "avariados", foi hoje divulgado.
Número de utentes sem médico voltou a subir em dezembro: soma três meses consecutivos de agravamento e termina o ano com mais 40 mil pessoas a descoberto do que em 2024.
Os trabalhadores da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra apresentam níveis moderados de stress, ‘burnout’ e problemas de sono, que sugerem desgaste profissional acumulado, compatível com contextos de elevada pressão assistencial e organizacional.
Falta de profissionais, pico de gripe e corredores cheios levam equipa a protestar logo às 8 da manhã. Administração admite pressão extrema e promete soluções.
Portugal atravessa um ciclo raro e prolongado de excesso de mortalidade: há 26 dias consecutivos com óbitos acima do esperado, vários deles a ultrapassar os 400 mortos por dia.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulgou hoje um diploma que altera a lei de revisão do Sistema Integrado de Gestão e Avaliação do Desempenho na Administração Pública (SIADAP).
O aeroporto de Lisboa é hoje reforçado com 24 militares da Guarda Nacional Republicana (GNR), uma medida do Governo para reduzir os tempos de espera na zona das chegadas.