Portugal Vive da Emigração Porque o Estado Falhou

Portugal é, historicamente, um país de emigrantes, contudo, esta não é uma verdade abstrata, mas sim uma realidade vivida, sobretudo em territórios rurais, de classe trabalhadora e profundamente ligados à diáspora, como tantas terras do interior e do Minho. Nas décadas de 60 e 70, milhares de jovens portugueses não tiveram alternativa senão partir. França, Suíça, Luxemburgo tornaram-se destinos quase obrigatórios. Não partiram por ambição, nem por espírito aventureiro.

Partiram porque não havia alternativa, ou passar fome ou usar a saída de emergência para poder comer e ajudar a família. Décadas depois, esses portugueses regressam todos os verões. Voltam à família, às raízes, às terras que nunca deixaram verdadeiramente. E deixam em Portugal uma quantidade significativa de dinheiro. Segundo dados do Banco de Portugal, as remessas dos emigrantes ultrapassam 4 mil milhões de euros por ano, com especial impacto nos meses de verão, quando o consumo interno dispara. À primeira vista, parece uma boa notícia, não?

Basta olhar com atenção para perceber o problema estrutural. Com tanto dinheiro a entrar na economia nacional, seria razoável esperar que Portugal tivesse criado condições para que estes emigrantes regressassem definitivamente. No entanto, os números mostram exatamente o contrário. De acordo com dados do INE e da PORDATA, cerca de 30 % dos jovens portugueses entre os 15 e os 39 anos vivem no estrangeiro.

Entre os mais qualificados, o cenário é ainda mais preocupante, estudos indicam que cerca de 40 % dos licenciados portugueses acabam por emigrar. Consegue o leitor sentir o insulto? Não o insulto do emigrante, que muitas vezes gostaria de regressar, mas o insulto de um Estado que não consegue convencê-lo a voltar, muito menos impedir a fuga contínua dos seus próprios jovens. Quando um país investe na formação dos seus cidadãos e depois os vê partir em massa, não se trata de mobilidade saudável, trata-se de falência política. Formar um jovem em Portugal não é barato, a educação é um investimento.

Segundo dados da OCDE e do Ministério da Educação, o custo médio acumulado da educação pública de um aluno, do ensino básico até ao final de uma licenciatura, pode ultrapassar 100 mil euros por estudante, considerando despesa com infraestruturas, professores, apoios sociais e ensino superior. Esse investimento é feito pelo Estado português, é feito pelos portugueses, do nosso bolso. Se funcionasse até que era razão para celebrar, mas o retorno é cada vez mais escasso.

Em 2022, milhares de jovens recém licenciados emigraram à procura de melhores salários, condições de trabalho e perspetivas de carreira. Um estudo citado por entidades académicas e económicas estima que Portugal possa estar a perder mais de 2 mil milhões de euros por ano em valor económico potencial devido à emigração jovem qualificada. Mas calma, há boas notícias!

Esses jovens regressam no verão, muitos já adultos ativos. Eles consomem, gastam, ajudam o comércio local, alimentam cafés, restaurantes, alojamentos e serviços. Parte desse dinheiro regressa ao Estado sob a forma de impostos indiretos. Mas isto não é desenvolvimento económico. É sobrevivência sazonal! Portugal tornou-se dependente da emigração e do turismo para equilibrar a economia. Segundo dados oficiais, o turismo representa cerca de 12 % do PIB nacional, revelando um modelo excessivamente concentrado e vulnerável. O investimento público na juventude acaba, assim, por ser devolvido ao Estado não através do trabalho, da inovação ou da criação de valor interno, mas através do consumo temporário de quem foi obrigado a sair. Portugal depende da emigração, mas não deveria. A emigração faz falta a Portugal, mas a reflexão não termina aqui. O problema de fundo é simples, Portugal não vive do que produz, vive do que entra.

Entra pelo turismo, entra pelas remessas dos emigrantes e, mais recentemente, entra pela imigração apresentada como solução económica. O Governo insiste que os novos imigrantes contribuem para o crescimento, mas fica a pergunta que nunca é feita: porque é que esse papel não é desempenhado, antes de mais, pelos próprios portugueses?

O Estado investe na formação dos jovens, mas não cria condições para trabalharem cá. Em vez de uma economia aberta, produtiva e capaz de absorver talento (pouco qualificado, qualificado e altamente qualificado) optou-se por um modelo dependente, sazonal e de curto prazo. O investimento público na juventude regressa ao país não sob a forma de trabalho, inovação ou desenvolvimento, mas através do consumo temporário de quem foi obrigado a sair (ou de quem veio ocupar esse espaço). Um país que precisa sempre de alguém de fora para funcionar não é um país forte. Enquanto Portugal não conseguir crescer com os seus, durante o ano todo e em todos os setores, continuará a trocar desenvolvimento por sobrevivência, tal e qual um jovem emigrante que foi obrigado a partir.

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