O difícil despertar da velha política

As eleições legislativas de 18 de maio de 2025 foram um ponto de viragem no cenário político português. Uma nova força política ascendeu a líder da oposição, com uma votação expressiva, deixando para trás partidos que, outrora, tinham influência desproporcional na vida política nacional. O povo falou, e falou com clareza. No entanto, nem todos parecem dispostos a ouvir — especialmente alguns partidos e, curiosamente, uma parte significativa da comunicação social.

É quase absurdo observar a forma como forças partidárias praticamente reduzidas a uma representação simbólica continuam a ter direito a tempo de antena como se nada tivesse mudado. Estamos a falar de partidos que foram, literalmente, rejeitados pela esmagadora maioria dos eleitores. A resposta dos portugueses foi clara: mudança. No entanto, a forma como os média continuam a tratar estas forças políticas parece assente numa espécie de pacto informal de proteção, alimentado por afinidades ideológicas que ignoram a realidade eleitoral.

Ainda hoje vemos os mesmos rostos, as mesmas vozes, os mesmos discursos de sempre a ocupar o espaço público. A comunicação social, em vez de refletir a nova configuração parlamentar, insiste em manter viva uma narrativa ultrapassada, muitas vezes baseada no medo: o medo do fascismo, do racismo, da xenofobia — palavras que são atiradas com leviandade para colar rótulos a tudo o que fuja da bolha politicamente correta.

Essas acusações, muitas vezes sem qualquer fundamento prático, tornaram-se uma espécie de escudo de proteção ideológica para aqueles que perderam as eleições, mas querem continuar a moldar a opinião pública. O problema é que, quando se chama “fascista” a tudo e a todos, a palavra perde o seu peso, e o debate político degrada-se.

Pior ainda, vemos representantes políticos a gastar os seus preciosos minutos de intervenção no Parlamento para atacar países como os Estados Unidos ou Israel, enquanto defendem regimes como o Irão — conhecido pelas suas violações sistemáticas dos direitos humanos, em especial das mulheres. A incoerência é gritante. O que é mais preocupante é ver como esses discursos são depois amplificados e normalizados por determinados canais de televisão, como se se tratasse de opiniões ponderadas e legítimas.
A Dra. Mariana Mortágua, por exemplo, cuja representação parlamentar se encontra hoje profundamente reduzida, continua a ser presença regular nos meios de comunicação. Mesmo afastada pelo eleitorado, continua a ter palco privilegiado. Já o mesmo não se pode dizer de outros representantes democraticamente eleitos, como os do JPP, que raramente são ouvidos ou convidados a participar nos debates televisivos. Isto é tudo menos democracia equilibrada.

Também o Partido Socialista não escapa a este novo cenário. Depois de décadas de protagonismo, os portugueses decidiram dar um sinal claro de cansaço e desconfiança. A sua perda de influência parlamentar não foi um acaso, mas antes o reflexo de erros acumulados, promessas falhadas e um certo descolamento da realidade vivida pelas pessoas comuns. Curiosamente, mesmo após a derrota, continuam a surgir figuras do PS nas televisões a comentar, analisar e quase ditar o rumo político do país, como se nada tivesse acontecido. Os média parecem não compreender que os portugueses já se pronunciaram — e disseram basta.

A comunicação social, enquanto pilar da democracia, tem a responsabilidade de refletir a realidade e não de a manipular ou ignorar. O espaço de debate deve ser proporcional à representatividade de cada força política. Não se trata de censurar ninguém, mas de dar prioridade a quem representa, de facto, mais portugueses. O maior partido da oposição, com 60 deputados eleitos, continua a ser tratado com desconfiança e desdém por muitos comentadores e jornalistas. Isso é profundamente injusto e revela um enviesamento grave no funcionamento dos órgãos de comunicação.

Não defendo tratamento especial para o Chega ou qualquer outro partido. Defendo, sim, igualdade de tratamento. A democracia não é apenas o direito ao voto; é também o direito à representação equilibrada no espaço público. O contraste entre a visibilidade mediática de partidos residuais e o silêncio imposto a outros é uma distorção que fere os princípios democráticos.

Além disso, é irónico constatar que algumas das medidas que agora são apresentadas pelo Governo — nomeadamente nas áreas da segurança, imigração e justiça — foram, durante anos, bandeiras do Chega, severamente criticadas por quase todos os setores políticos e mediáticos. Agora, implementadas por outros, parecem aceitáveis e até “necessárias”. Afinal, o “papão do fascismo” serviu apenas para desviar atenções de propostas que hoje se revelam pertinentes.

E há ainda outro aspeto inaceitável: o modo como a comunicação social trata os líderes partidários. Esta semana, vimos vários canais interromperem a transmissão em direto de declarações do Dr. André Ventura. Nunca vimos o mesmo acontecer com outros líderes — nem com António Costa, nem com Pedro Nuno Santos, nem com Catarina Martins ou Rui Tavares. Há dois pesos e duas medidas. Isso mina a credibilidade dos média e, pior, enfraquece a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.

Não se pode exigir respeito democrático quando esse respeito não é praticado de forma equitativa. A democracia exige debate livre, mas também responsabilidade na gestão desse debate. É tempo de os média fazerem uma reflexão profunda sobre o seu papel: estão ao serviço do pluralismo ou da proteção de certas elites partidárias?

O respeito não pode ser só uma palavra bonita usada em discursos. Tem de ser um princípio praticado todos os dias, por todos os atores da democracia. E isso começa por reconhecer os resultados das eleições — por mais incómodos que sejam para alguns.

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