Estudo revela que 30% dos jovens já se autolesionaram e 7% já tentaram pôr fim à vida

A investigação, que envolveu 900 jovens da Área Metropolitana de Lisboa com idade média de 15 anos, identificou fatores familiares e psicológicos como principais riscos associados a este sofrimento silencioso.

© D.R.

Cerca de 30% dos adolescentes inquiridos num estudo divulgado hoje já se autolesionaram e destes 7% admitiram ter tentado pôr fim à vida pelo menos uma vez, sendo que apenas 13% procuraram ajuda.

O estudo revela também que a maioria dos jovens pensou em suicídio: cerca de metade em níveis de ideação suicida moderada e 18% “pensam diariamente em morrer”, disse à Lusa a autora do trabalho, a psicóloga Maria de Jesus Candeias.

A investigação, que envolveu 900 jovens da Área Metropolitana de Lisboa com idade média de 15 anos, identificou fatores familiares e psicológicos – como ideação suicida, sintomas de perturbação ‘borderline’ e impulsividade – como principais riscos associados a este sofrimento silencioso.

Maria de Jesus Candeias disse à Lusa que o objetivo do estudo foi compreender a prevalência dos comportamentos autolesivos e suicidários na adolescência e os fatores que podem contribuir para o seu desenvolvimento e para os poder prevenir.

“Para já temos uma prevalência enorme, dada a gravidade do que significam estes comportamentos”, disse a investigadora, considerando como “mais preocupante” que apenas 13% tenham pedido algum tipo de ajuda aos pais ou a um professor, o que significa que é um problema que “continua invisível na comunidade”.

“Isto é muito preocupante porque estes jovens estão sozinhos, não pedem ajuda, não falam”, alertou, explicando que estes comportamentos surgem para “lidar com dores emocionais esmagadoras, sobretudo quando faltam palavras ou quem escute”.

Os comportamentos em causa incluem ações intencionais de fazer mal a si próprio, como cortar-se, queimar-se, bater-se, ingerir substâncias ou colocar-se em risco, com ou sem intenção suicida.

Maria de Jesus Candeias disse que “muitas vezes se confunde a turbulência da adolescência com esta sintomatologia”, o que cria confusão e os próprios jovens subestimam o que lhes está a acontecer.

“Não são birras ou chamadas de atenção”, como ainda muitos acreditam, mas “um sinal patológico de um sofrimento psicológico profundo que não pode ser ignorado”, realçou.

A psicóloga alertou que a tendência é que haja “um crescente contínuo” destes comportamentos: “O jovem está em sofrimento, que vai agravando, quer pela severidade, quer pela frequência, estes comportamentos que podem culminar em tentativas efetivas ou suicídio consumado a longo prazo”.

Os resultados mostram que um funcionamento familiar desequilibrado, marcado por baixa coesão e baixa flexibilidade, tem um peso significativo na forma como os jovens aprendem a lidar, ou não, com as suas emoções.

Maria de Jesus Candeias exemplificou que “laços familiares frágeis, pouco afeto, pouca partilha de informação, fazem os adolescentes sentirem-se sós, desconectados e sem um porto seguro, onde possam expressar aquilo que estão a viver emocionalmente”.

As famílias “muito rígidas” também fazem o jovem sentir-se preso, incompreendido e sem espaço para poder errar e viver esta fase da vida.

A investigadora, que realizou o estudo no âmbito do seu doutoramento em Psicologia Clínica no ISPA — Instituto Universitário, defendeu que as famílias têm de estar muito atentas a estas situações e “melhorar a comunicação”.

“Vivemos numa sociedade onde as famílias estão desconectadas, onde os pais não sabem dos filhos e os filhos não sabem dos pais”, alertou.

Destacou a importância das escolas para detetar sinais e oferecer ajuda”, mas contou que encontrou durante o trabalho “barreiras significativas” no acesso às escolas, “reflexo do estigma que ainda envolve a saúde mental na adolescência”.

Mas, vincou, “o silêncio sobre os comportamentos suicidários não protege – isola”.

Segundo a investigadora, os comportamentos autolesivos nos jovens “aumentou exponencialmente” nas últimas duas décadas, notando-se uma separação entre o pré e o pós-pandemia.

Defendeu ser urgente desenvolver programas terapêuticos dirigidos a adolescentes com estes problemas, integrando a família, promovendo o diagnóstico precoce e articulando psicoterapia individual, apoio familiar estruturado e, quando necessário, suporte institucional especializado.

“A escola, a família e a comunidade devem ser espaços seguros onde esse sofrimento possa ser reconhecido e acompanhado”, reforçou.

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Se estiver a sofrer com alguma doença mental, tiver pensamentos auto-destrutivos ou simplesmente necessitar de falar com alguém, deverá consultar um psiquiatra, psicólogo ou clínico geral. Poderá ainda contactar uma destas entidades (todos estes contactos garantem anonimato tanto a quem liga como a quem atende):

Atendimento psicossocial da Câmara Municipal de Lisboa

800 916 800 (24h/dia)

SOS Voz Amiga – Linha de apoio emocional e prevenção ao suicídio

800 100 441 (entre as 15h30 e 00h30, número gratuito)

213 544 545 – 912 802 669 – 963 524 660 (entre as 16h e as 00h00)

Conversa Amiga

808 237 327 (entre as 15h e as 22h, número gratuito)

210 027 159

SOS Estudante – Linha de apoio emocional e prevenção ao suicídio

239 484 020 – 915246060 – 969554545 (entre as 20h e a 1h)

Telefone da Esperança

222 080 707 (entre as 20h e as 23h)

Telefone da Amizade 

228 323 535 | 222 080 707 (entre as 16h e as 23h)

Aconselhamento Psicológico do SNS 24 – No SNS24, o contacto é assumido por profissionais de saúde

808 24 24 24 selecionar depois opção 4 (24h/dia)

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