Pastores e queijeiros na Covilhã procuram resistir após fogo levar pasto

As ovelhas estão a salvo na Queijaria do Paul, no concelho da Covilhã, mas a maioria dos 100 hectares de pasto arderam com o fogo. Num setor difícil, olha-se com desconfiança para o futuro e procura-se continuar a resistir.

© LUSA/PAULO NOVAIS

Às duas da manhã na noite de 17 para 18 de agosto, Helena Moreira conseguiu passar o bloqueio da GNR e ver como estava a Queijaria do Paul, depois de ter visto publicações nas redes sociais a afirmar que teria ardido com o incêndio que tinha começado dias antes em Arganil.

A gerente daquela pequena queijaria artesanal encontrou os 100 hectares de pasto que têm à volta da quinta ardidos e um armazém com mais de mil fardos de palha prontos para o inverno a arder, com um trator lá dentro.

“Parecia um vulcão”, recorda-se.

Naquela queijaria no concelho da Covilhã, próxima da vila do Paul, regista-se um prejuízo de 50 a 60 mil euros. Ainda assim, salvaram-se as mais de 400 ovelhas e as instalações da queijaria, onde no dia seguinte as funcionárias fizeram questão de continuar a trabalhar, mesmo com tudo ardido à volta.

“Viemos logo. A GNR não nos queria deixar passar, mas tínhamos que vir”, conta uma das queijeiras à agência Lusa, enquanto prepara queijos.

Outra funcionária vinca: “É uma luta, mas tem de ser”.

Helena Moreira explica que os prejuízos relacionados com a alimentação das ovelhas vêm a dobrar: “Temos de comprar para agora e voltar a comprar aquele que tínhamos para o inverno e que ardeu”.

Com sete trabalhadores, a queijaria até estava a pensar crescer, mas, face ao fogo, poderá ter de pensar em reduzir o rebanho, admite.

“A conjuntura a nível agrícola não é fácil. Desde o covid-19 que as coisas têm sido difíceis e agora mais esta situação agrava a parte financeira”, diz a gerente de uma das poucas explorações de queijo que há na zona.

“Para estar no Interior é preciso ter uma capacidade de resistência e de superação muito grande. E depois quando acontecem estas calamidades, também acabamos por nos sentir sozinhos”, lamentou.

Na Erada, Alexandre Rodrigues conseguiu minimizar os possíveis impactos da passagem das chamas pela sua quinta, aonde se chega por uma estrada de terra a partir da sede de freguesia.

O produtor de 47 anos, com um rebanho de 250 cabras, lá conseguiu evitar o pior, em conjunto com os pais, irmão e mulher e duas equipas de bombeiros.

“Assim que soubemos que o fogo passava pela Teixeira [em Seia], estávamos preparados, que uma pessoa apressa-se mais, quando vemos as barbas do vizinho a arder”, conta.

Munidos de depósitos de água e baldes procuraram evitar que as fagulhas entrassem para o pavilhão onde estavam as cabras e para os montes de fardos de palha armazenados num espaço contíguo.

Perdeu algumas máquinas e fardos de palha fora dos pavilhões, mas, face à localização da quinta, rodeada de pinhal e afastada de qualquer localidade, podia ter sido pior.

“Valeu-nos duas equipas de bombeiros”, salientou.

Já a subir para a Serra da Estrela, na zona de Unhais da Serra, não houve bombeiros para combater as chamas na quinta de Alexandre Galvão, de 36 anos, situada num ponto alto, de difícil acesso, de onde se consegue ver a Torre.

O jovem pastor, os seus pais e irmão defenderam a quinta com pás, enxadas e giestas e o fogo acabou a contornar o espaço, onde o trabalho das suas cerca de 300 cabras serranas também poderá ter feito a diferença.

Também ali, lamenta-se o pasto perdido ao longo de toda a serra, com cabras que chegavam a ir pastar até à Torre.

Agora, terá de comprar fardos de palha que não contava comprar e teme ainda que as cabras prenhas – cerca de 120 – possam abortar face ao stress que o fogo causou, às cinzas e poeiras que se sentem no ar e à falta de pasto.

Numa profissão que não é fácil, Alexandre conta pelos dedos de uma mão os produtores que conhece na zona e, a pastar na serra, será só ele, o seu pai e outro homem.

“Era preciso mais rebanhos”, defende, admitindo acreditar que dez ou 12 pastores já fariam a diferença por aquela serra.

Além disso, critica a política de combate a todos os fogos, mesmo aqueles que acontecem durante o inverno.

“No inverno, queima-se para não se arder no verão. Mas agora acha-se que todo o fogo é mau fogo”, afirma.

O pai de Alexandre, que regressa do pastoreio nas poucas terras que não estão negras, junta-se à conversa para convidar os políticos a andarem com ele para ver “o que é esta vida”.

“Almoçam fora, jantam fora e dormem fora”, brinca, dizendo que mais vale levar a situação “a rir”. Entre a possível desgraça, escaparam – tanto eles, como as cabras, os cães, as galinhas e gatos que quebram o silêncio da serra.

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