Comprar casa em Portugal exige esforço superior a 40% do rendimento mediano

As famílias de rendimento mediano dificilmente têm acesso à compra de habitação em Portugal, uma vez que o peso da prestação do crédito à habitação supera 40% do seu rendimento, indica um estudo do Banco de Portugal (BdP).

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A partir de 2022, o rácio prestação bancária/rendimento mediano (vulgo taxa de esforço) começou a subir, atingindo 53% no último trimestre de 2023. Após esse período, desceu ligeiramente até se situar em 48% nos três primeiros trimestres de 2025.

No período anterior, entre 2009 e 2021, o peso da prestação do crédito à habitação era inferior a 30% do rendimento mediano das famílias.

A análise do BdP, que atualiza os indicadores de acessibilidade à habitação, via crédito ou arrendamento, apresentados em outubro de 2023, considera que um indicador de acessibilidade superior a 40% “sinaliza uma sobrecarga para uma família de rendimento mediano”.

De acordo com estudo, entre o início de 2019 e o final de 2023, o indicador prestação/rendimento duplicou, com a prestação mensal a aumentar de 350 para 855 euros, refletindo a subida do preço das casas e o aumento das taxas de juro.

Posteriormente, os juros baixaram, mas os preços da habitação continuaram a subir e a contribuir para deteriorar o indicador, apesar da melhoria de 34% no rendimento das famílias ocorrida entre 2019 e o terceiro trimestre de 2025.

A nível regional, os autores do estudo indicam que em 2019 apenas nove municípios excediam o indicador de 40%, mas no final de 2023 (último ano com dados) eram já 104 (num total de 294 analisados).

A acessibilidade à habitação é menor no litoral, sobretudo em Lisboa e no Porto.

Na capital, a prestação mensal para adquirir uma casa de área mediana subiu de 907 para 1.811 euros entre 2019 e 2023, representando “uma taxa de esforço teórica de 102% para uma família de rendimento mediano”.

No Porto, cresceu de 550 para 1.339 euros, correspondendo a 84% do rendimento mediano das famílias.

Como sublinham os autores do estudo, apenas as famílias de maiores rendimentos (percentil 90 e 80, respetivamente) podem adquirir “uma casa mediana a preços medianos” nas duas maiores cidades.

Em alguns municípios do Algarve, por exemplo, esse objetivo revela-se praticamente impossível de alcançar.

Assim, “a compra só é acessível para famílias com poupança acumulada ou não residentes no município com rendimentos mais elevados (incluindo residentes no estrangeiro)”, já que apenas 30% das famílias poderiam suportar em 2023 uma prestação com um peso acima de 40% do rendimento.

Esse “aumento das barreiras no acesso à habitação via crédito no período recente” mantêm-se, mesmo quando é analisada a acessibilidade a casas mais modestas por parte dos jovens.

A análise dos créditos mais recentes mostra também que estão concentrados “em famílias de rendimento mais elevado”. Mesmo assim, em 26 municípios o limiar de 40% é excedido.

No caso do arrendamento, as dificuldades no acesso mantêm-se. O rácio entre a renda de uma casa mediana e o rendimento mediano das famílias passou de 36% em 2019 para 47% no início de 2025, refletindo a subida dos arrendamentos.

Também aqui se verificam as disparidades regionais, com o litoral a evidenciar escassez “na oferta de novos fogos face ao aumento da procura”. Entre 2019 e 2023, a renda mensal mediana subiu de 1.001 para 1.274 euros, implicando um peso de 72% no rendimento mediano – que sobe para 66% no caso do Porto.

O estudo recorda ainda que o índice de preços na habitação aumentou 140% entre 2016 e 2025, e que entre o primeiro trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2025 houve uma subida da renda mediana por metro quadrado de cerca de 65%.

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