Tradição dinamiza vendas mas oferecer chocolates vai ser mais caro este Natal

As empresas chocolateiras sentem já “uma efervescência” crescente na procura e perspetivam o habitual pico de vendas na época natalícia, mas oferecer chocolates vai ficar mais caro este ano devido à escalada do preço do cacau nos mercados internacionais.

© D.R.

“As perspetivas de venda para a época de Natal são muito positivas, especialmente considerando a relevância do último trimestre no total das nossas vendas anuais”, afirmou à agência Lusa o diretor-geral do grupo Arcádia.

Segundo Francisco Bastos, o Natal é tradicionalmente “uma altura de pico de consumo” e a empresa tem já vindo a notar “um aumento na procura por chocolates ‘premium’ e produtos diferenciados”.

Fundada no Porto em 1933 pela família Bastos, que se mantém ainda à frente dos destinos da marca, a Arcádia diz ter reforçado, nesta época, a sua oferta “com novos produtos e embalagens apelativas”, mantendo o “forte compromisso com a qualidade e a tradição”.

Também otimista está a Fábrica de Chocolates Casa Grande, de Vila Nova de Famalicão, que tem “excelentes perspetivas para este Natal” e está até a ver-se obrigada a “ratear entre clientes” alguns produtos do seu portefólio.

“Apesar do contexto, sente-se uma efervescência na procura. O chocolate é um produto seguro, é quase como o ouro. Está sempre lá, de salvaguarda”, disse à Lusa o presidente executivo (CEO), André Castro Vieira.

A desafiar o desempenho do setor está, contudo, a alta do preço do cacau, que mais do duplicou desde o início do ano, refletindo as condições climatéricas adversas associadas às alterações climáticas que afetaram as colheitas, nomeadamente na África Ocidental.

“A magnitude do aumento do preço do cacau, que em abril esteve cotado ao triplo do preço a que estava em janeiro, obrigou-nos a ajustar os preços e as gramagens de alguns produtos”, refere o diretor-geral da Arcádia.

Ainda assim, Francisco Bastos diz que a empresa “absorveu uma parte significativa deste impacto, para minimizar a repercussão para os clientes”, tendo conseguido manter o aumento médio dos preços dos seus produtos abaixo dos 10% este ano.

“Este aumento foi sendo feito gradualmente durante o ano, pelo que naturalmente neste Natal já será sentido”, admite.

Para o CEO da Casa Grande, é “um absurdo” o que se tem vindo a passar com os preços do cacau, que, recorda, no mercado de futuros teve uma cotação estável em torno dos 2.500 dólares (por tonelada) nos últimos cinco anos, mas este ano chegou a picos de 15.000 dólares e ronda agora os 10.000 dólares.

“O preço ‘spot’ da pasta de cacau está em valores astronómicos, acima dos 20.000 dólares a tonelada. Um absurdo”, sustenta André Castro Vieira.

Como resultado, assume, “é inevitável” que neste Natal e, pelo menos, até à próxima Páscoa, o consumidor sinta “um forte aumento de preço no linear”.

A este nível, o CEO nota que a estratégia da Casa Grande foi diferente nos negócios do segmento B2C (‘business to consumidor’) e do segmento B2B (‘business to business’).

“Na venda direta via loja ‘online’, na nossa loja de fábrica ou no retalho alimentar optámos por não alterar os PVP [preços de venda ao público], espremendo as nossas margens e pedindo algum contributo à margem do retalhista. Travamos esforços promocionais, desinvestimentos no apelo ao consumo, e acabamos por fazer as chamadas ‘vendas naturais’”, explicou.

Já no segmento B2B, que inclui a produção da empresa para marcas de terceiros, a Casa Grande teve de fazer “sucessivos ajustes”: “O aumento de custo de um produto com 50% de cacau é brutal e não podia ser de outra forma. Perdemos alguns volumes, porque os clientes recearam colocar produtos em prateleira com ‘tickets’ muito elevados (por recearem menor rotação e por questões de posicionamento-preço das suas marcas), mas não podíamos agir de outra forma”, afirma André Castro Vieira.

Quanto ao recurso a matérias-primas alternativas ao cacau, de custo inferior, é algo a que – mesmo que “em prejuízo forte” da rentabilidade – a Casa Grande tem resistido, decidida que está a “preservar o receituário e património sensorial” da marca.

“A estrutura societária da empresa permitiu-nos esta opção, assumindo o investimento da operação deficitária. Mas não fazemos juras eternas. Há algumas opções para substitutos de chocolate que temos mapeadas”, diz o CEO, sem avançar mais detalhes. “Guardamos esse trunfo para mais tarde…”, justificou.

Na mesma linha, também a Arcádia garante continuar “a utilizar apenas matérias-primas de excelência”, recusando comprometer a qualidade do seu chocolate.

“Trabalhamos com fornecedores que adotam práticas sustentáveis e garantem a excelência da matéria-prima, preservando a autenticidade dos nossos produtos. A Arcádia mantém-se comprometida em proporcionar produtos de excelência, mantendo o equilíbrio entre qualidade, acessibilidade e sustentabilidade”, assevera Francisco Bastos.

Neste contexto desafiante, a Arcádia prevê encerrar o ano com um aumento de 12% da faturação face a 2023, impulsionada pelo segmento de chocolates diferenciados, em resultado da aposta feita em inovação e produtos ‘premium’.

Já a Fábrica de Chocolates Casa Grande vai fechar 2024 abaixo do exercício anterior, quer em volume, quer em valor, refletindo a opção feita de reduzir o esforço promocional nas suas marcas e de diminuir volumes nas marcas de terceiros.

“Não ultrapassaremos os dois milhões de euros, seguramente”, antecipa o CEO.

Quanto às perspetivas para 2025, André Castro Vieira admite que “arrancam negras”, porque “não se estima que o preço do cacau diminua”.

“Aliás, antes pelo contrário. Novos ajustes serão necessários”, antecipa, garantindo: “Cá estaremos com algumas novidades, para tentar chegar a novos públicos, novos segmentos e novos mercados”.

Últimas de Economia

Os juros da dívida portuguesa subiam hoje com força a dois, cinco e 10 anos face a quinta-feira, no prazo mais curto para máximos desde julho de 2024 e nos dois mais longos para máximos desde outubro de 2023.
O presidente do CHEGA considerou que "é sempre positivo" quando a economia portuguesa regista um excedente orçamental, mas exigiu que o Governo tome mais medidas para aliviar o aumento dos preços na sequência do conflito no Médio Oriente.
Os bancos tinham emprestados, no final de 2025, 34,3 mil milhões de euros a empresas e famílias dos concelhos colocados em situação de calamidade na sequência da tempestade Kristin, segundo dados hoje divulgados pelo Banco de Portugal (BdP).
O 'stock' de empréstimos para habitação cresceram pelo 25.º mês consecutivo em fevereiro, com um aumento homólogo de 10,4%, atingindo 111.658 milhões de euros, divulgou hoje o Banco de Portugal (BdP).
A taxa de poupança das famílias recuou para 12,1% do rendimento disponível no final de 2025, divulgou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE).
A carga fiscal aumentou para 35,4% em 2025, face aos 35,2% registados no ano anterior, de acordo com a primeira notificação de 2026 relativa ao Procedimento dos Défices Excessivos divulgada hoje pelo INE.
O cabaz essencial de 63 produtos monitorizado pela Deco Proteste aumentou 0,08 euros esta semana face à anterior e acumula um acréscimo de 12,57 euros desde início do ano, fixando-se num novo máximo de 254,40 euros.
O preço do gás natural para entrega no prazo de um mês no mercado TTF dos Países Baixos, referência na Europa, aumentou hoje 4% e ultrapassou os 54 euros por megawatt-hora (MWh), devido ao conflito no Médio Oriente.
As famílias de rendimento mediano dificilmente têm acesso à compra de habitação em Portugal, uma vez que o peso da prestação do crédito à habitação supera 40% do seu rendimento, indica um estudo do Banco de Portugal (BdP).
O valor mediano de avaliação bancária na habitação foi de 2.122 euros por metro quadrado em fevereiro, um novo máximo histórico e mais 17,2% do que no mesmo mês de 2025, divulgou o Instituto Nacional de Estatística (INE).