Mais de 40% de Espanha ameaçada de desertificação devido à atividade humana

Mais de 40% do território espanhol está num processo de degradação devido à atividade humana que pode conduzir a desertificação, segundo o primeiro "Atlas da Desertificação em Espanha", elaborado por cientistas de diversas universidades e publicado recentemente.

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“Em Espanha, um dos países europeus mais vulneráveis à degradação da terra, a desertificação avança em silêncio, mas com consequências palpáveis: perda de fertilidade do solo, retrocesso da vegetação natural, incremento de incêndios florestais, diminuição de recursos hídricos e abandono de usos tradicionais do território”, lê-se no atlas, coordenado pela Universidade de Alicante e pelo Conselho Superior de Investigações Científicas de Espanha (CSIC), financiado por fundos europeus e que conta com contributos de dezenas de investigadores de todo o país.

Os coordenadores da publicação sublinham que desertificação não é sinónimo de deserto ou de paisagens sem vegetação e sem áreas verdes e que “para desencadear processos de degradação é preciso uma atividade humana inadequada, ou seja, aquela que utiliza recursos naturais acima da sua taxa de regeneração permanente”.

As Nações Unidas, lembram, definiram desertificação como “degradação das zonas áridas, semiáridas e sub-húmidas secas como consequência de variações climáticas e atividades humanas”.

No caso de Espanha, segundo este atlas, publicado no final de novembro, mais de 70% do território “está em risco de sofrer processos de degradação do solo e uma parte significativa já mostra sintomas preocupantes”: 206.217 quilómetros quadrados (40,9% do país) sofrem já este tipo de degradação.

Os cientistas espanhóis chamam a atenção para os efeitos de atividades como a agricultura de regadio, mas também o abandono “de forma precipitada” do mundo rural.

“A disponibilidade de água renovável numa região específica” é “um dos indicadores que melhor mostra esta pressão”, neste caso, sobre os recursos hídricos, com Espanha a ter “extensas áreas com ‘stress’ hídrico extremo alto”, sendo o 29.º país a nível mundial com maior valor neste indicador (3,94 numa escala até 5).

“Em mais de 42% do território, este ‘stress’ é extremamente alto” (consumo de mais de 80% dos recursos de água doce disponíveis) e em outros 25% do território espanhol há “‘stress’ alto” (consumo de mais de 40%), lê-se no atlas.

Os autores do estudo sublinham que “boa parte da água é consumida no setor agrário” (22.500 hectómetros cúbicos por ano) e 40% das massas de água subterrâneas em Espanha “estão degradadas”.

“Em algumas demarcações hidrográficas a situação é ainda mais preocupante. Na do Guadiana, 86% dos aquíferos estão desertificados”, lê-se no estudo, em que os autores realçam que as sociedades como a espanhola “são viciadas na água” sem que até agora se tenham encontrado respostas adequadas para responder a um consumo tão elevado.

“Usamos sem muito critério recursos cada vez mais escassos, guiados por critérios económicos de curto prazo que substituem o senso comum. Confiamos em que uma nova proposta tecnológica resolva o problema, enquanto caímos em padrões que vistos de fora resultam tragicómicos: entre 2018 e 2024, os registos oficiais indicam que foram descartadas 483.624 toneladas de frutas e hortaliças, o que representa uma pegada hídrica de quase 36 hectómetros cúbicos”, sublinham.

Está em causa um desperdício que tem como “principal razão” o baixo preço, por causa de se produzir mais do que o necessário, acrescentam.

Os cientistas chamam também a atenção para o aumento da agricultura de regadio em Espanha e de como se estão, por exemplo, a regar culturas de sequeiro, como a oliveira.

Quanto ao abandono do espaço rural e concentração da população em zonas urbanas, os autores sublinham que “desertificação, por vezes, é consequência do sub-uso do território”, que pode ter “tão más consequências como a sobre-exploração”.

“O meio rural foi abandonado de forma precipitada após milhares de anos” de presença humana e “este trânsito” para zonas urbanas “tem as suas portagens”: “O que se observa atualmente é uma paisagem propensa aos incêndios florestais, onde as alteração climáticas favorecem o estabelecimento de espécies que nunca antes habitaram esse território e no qual, apesar tudo, o impacto humano ainda é relevante”, como acontece com a instalação de parques eólicos ou solares, a proliferação de estradas e outras infraestruturas.

Em zonas florestais que se têm expandido na sequência desse abandono do meio rural, sem limpeza de matas ou qualquer gestão, e de novo numa aliança com as alterações climáticas, estão a produzir-se incêndios florestais cada vez maiores e mais incontroláveis, alguns com capacidade para mudanças das condições meteorológicas da zona e que contribuem, também eles, para a degradação dos solos que pode conduzir à desertificação.

Em paralelo, sublinham os coordenadores do atlas, zonas áridas do Mediterrâneo, por exemplo, sofrem o impacto negativo a nível de consumo de recursos hídricos, por exemplo, da alta concentração populacional a que somam o elevado turismo.

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