Crise no Serviço Nacional de Saúde, Um testemunho das Urgências

Sem querer alongar sobre o motivo que me levou a recorrer às urgências do Hospital de São Francisco Xavier no dia 01 de dezembro, nem sobre as diversas horas que tive de aguardar até ser diagnosticado e tratado (muito em parte devido ao aumento significativo da procura por utentes não residentes).

Queria em vez disso, partilhar um testemunho de um Médico das Urgências, que após ter entrado no seu consultório e respondido às normais perguntas da praxe.

Verificamos que ambos partilhávamos a minha linha de raciocínio em relação à forma como o Sistema Nacional de Saúde está a ser gerido. Entre os problemas identificados constatamos que um dos mais crassos seria a falta experiência de campo da atual Ministra da Saúde e da cúpula que a rodeia e aconselha, nesta sequência, acabámos por acordar que este problema transcendia para os emais sectoriais deste Governo, poucos seriam aqueles que teriam efetivamente experiência relevante de campo, e de campo digamos operacional.

Segundo este Médico, um dos graves problemas que tem teimado em perdurar ao longo destes últimos 50 anos, encontra-se profundamente relacionado com a forma como as pessoas são nomeadas para os cargos de destaque, ou seja, as pessoas acabam por ser convidadas para os cargos, não pela sua experiência comprovada, mas sim pelo favorecimento político e o clientelismo, acabando por interferir e inclusive destruir as próprias estruturas internas dos Ministérios.

Mais um favor, mais uma cunha, mais um contrato duvidoso cujo desfecho só se saberá passado de uns anos, de preferência quando o signatário estiver a desempenhar um cargo bem longe no estrangeiro. Falta brio, falta dedicação e acima de tudo falta genuína paixão pelo país. Estes governantes há muito que não aproveitam a posição que têm para fazer algo de bom pela sociedade, limitando-se somente a servir-se da posição em proveito próprio e para atender à agenda das demais elites.

Para além crassa desigualdade de tratamento, ambos chegamos a consenso quanto à má gestão do erário publico, ou seja, 100 mil euros empregues para um tratamento de um “ turista da saúde” , seriam seguramente mais bem empregues a melhorar as condições dos hospitais ou a tornar a carreira do pessoal médico mais atrativa, porque se existir real interesse em atender às necessidades deste sector, os problemas relacionados com a falta de recursos humanos poderia ser substancialmente resolvidos, em vez de varrer o lixo para debaixo do tapete, através da contratação de tarefeiros significativamente mais dispendiosos para a fazenda nacional.

No decorrer desta conversa, o Médico confessou que eu teria sido a primeira pessoa a tratá-lo com respeito e civismo naquele dia, afirmando que geralmente as pessoas o viam como um mero repositório de receitas médicas, com a agravante de uma parte significativa dos utentes ser proveniente de outros países, que após realizarem tratamos dispendiosos, zarpavam para o seu país de origem com a barriguinha cheia, enquanto que os nossos teriam de aguardar meses ou anos para conseguirem ser tratados condignamente.

Em suma, e procurando ir ao encontro do título deste texto, embora esta mera conversa possa parecer trivial e com pouca relevância institucional, retrata o profundo descontentamento deste sector. Foram abandonados à sua sorte, são geridos por uma cúpula de incompetentes, e se desejarem obter melhores condições de vida, terão de migrar para o estrangeiro. Está é a triste realidade do Serviço Nacional de Saúde que os média optam por não dar voz.

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