Homem morreu no Seixal depois de quase três horas à espera do INEM

Um homem morreu na terça-feira no Seixal depois de quase três horas à espera de socorro do INEM, confirmou o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar, admitindo que o novo sistema de triagem possa ter influenciado o desfecho.

©INEM

A Lusa teve acesso à fita do tempo deste caso, que mostra que o homem, de 78 anos, ligou pela primeira vez a pedir socorro ao INEM pelas 11:20 de terça-feira, tendo esta situação sido classificada como prioridade 3 – que prevê o acionamento de meios em 60 minutos -, mas apenas foi enviada a viatura médica pelas 14:09, quase três horas depois.

A fita do tempo regista, pelas 11:23, que a vítima tinha dado uma queda, mostrando-se agitado, confuso, sonolento e prostrado.

Apesar de ter sido considerado uma situação de prioridade 3, mais de uma hora depois, pelas 12:48, a fita indica que a Cruz Vermelha do Seixal não tinha ambulância, que as ambulâncias de Almada e Seixal estavam ocupadas e, pelas 13:29, houve uma segunda chamada para o INEM a questionar a demora de meios.

Pelas 14:05 houve uma nova chamada e foi registado que a vítima estava em paragem cardiorrespiratória e pelas 14:09 foi enviada a viatura médica de Almada, que entretanto ficou livre.

Contactado pela Lusa, o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH) confirmou a informação, admitindo que o novo sistema de triagem, que entrou em vigou no início do ano, possa ter contribuído para o desfecho fatal.

“Provavelmente contribuiu porque, consoante a prioridade que lhe foi atribuída, poderia ser enviado o meio até 60 minutos. Por isso, até aí não me espanta que não tenha havido procura de meios para serem enviados”, afirmou o presidente do STEPH, Rui Lázaro.

O dirigente sindical disse ainda que “se o novo sistema não tivesse sido implementado, assim que a ocorrência foi criada [11:20], já se procuraria uma ambulância para ser enviada”.

Rui Lázaro adiantou que esta situação vem “confirmar o risco de deixar as pessoas à espera” e confirma que desde que o novo sistema de triagem do INEM começou a funcionar, o sindicato tem recebido diariamente denúncias de situações cujo tempo previsto nas prioridades foi ultrapassado sem que tivesse sido enviada qualquer ambulância.

“Tem havido muitos casos”, disse o presidente do STEPH, explicando que, na segunda-feira, houve várias situações no Algarve que deveriam ter visto meio acionado em 60 minutos, mas que isso só aconteceu duas ou quase três horas depois e cujas consequências desconhece.

Na sexta-feira, o INEM anunciou o início de um novo sistema de atendimento das chamadas recebidas nos CODU (Centro Operacional de Doentes Urgentes), que prevê cinco níveis de prioridade (emergente, muito urgente, urgente, pouco urgente e não urgente), à semelhança da triagem usada nos hospitais.

A classificação resulta da avaliação clínica que é realizada pelos profissionais do CODU, com base na informação recolhida durante a chamada para 112.

A prioridade emergente, para situações de risco de vida iminente, implica uma resposta imediata, com o envio de meios de suporte básico de vida, articulados com suporte imediato ou avançado de vida. Para os casos muito urgentes, o novo sistema prevê a chegada do primeiro meio de socorro ao local até 18 minutos e nas situações urgentes, com risco de agravamento clínico, o tempo de resposta previsto é até 60 minutos. Já os pouco urgentes preveem a chega ao local de meios em 120 minutos.

O novo sistema de triagem do INEM tem sido alvo de críticas, com os bombeiros a dizerem que, com a definição dos tempos por prioridades, os doentes são deixados à espera de ambulância, apesar de haver meios disponíveis.

Uma reportagem da Sic revelou na terça-feira um caso de um pedido de ajuda recebido pelos bombeiros de Tábua, de um utente que tinha ligado para o INEM, que o avisou de que a ambulância poderia demorar até duas horas (120 minutos), apesar de haver meios disponíveis na corporação, que acabou por responder de imediato.

Últimas do País

O coordenador da Comissão de Trabalhadores do INEM, Rui Gonçalves, denunciou hoje um "forte desinvestimento" no Instituto nos últimos anos e lamentou a existência de "dirigentes fracos", defendendo uma refundação que garanta a resposta em emergência médica.
A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) abriu hoje dois inquéritos para apurar as circunstâncias que envolveram as mortes de uma mulher em Sesimbra e de um homem em Tavira enquanto esperavam por socorro.
Portugal regista desde o início de dezembro um excesso de mortalidade de cerca de 22% associado ao frio e à epidemia de gripe, com aumento proporcional das mortes por doenças respiratórias, segundo uma análise preliminar da Direção-Geral da Saúde (DGS).
A enfermeira diretora da ULS Amadora-Sintra demitiu-se do cargo, alegando não existirem condições para continuar a exercer funções, anunciou hoje a instituição.
O INEM e a Liga dos Bombeiros Portugueses acordaram hoje um reforço de meios permanentes ao serviço da emergência médica, ainda não quantificado, mas que inicialmente se vai focar em responder a constrangimentos na margem sul de Lisboa.
Do Seixal a Sesimbra e a Tavira, o padrão repete-se: três pessoas morreram em diferentes pontos do país após esperas prolongadas por assistência médica, num retrato da rutura do socorro.
O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) abriu uma auditoria interna aos procedimentos associados ao caso da mulher que morreu na Quinta do Conde, Sesimbra, depois de esperar mais de 40 minutos por socorro.
O Tribunal Judicial de Leiria começa a julgar no dia 23 um professor acusado de dois crimes de maus-tratos em concurso aparente com dois crimes de ofensa à integridade física qualificada.
O atraso no socorro voltou a ter consequências fatais. Uma idosa morreu na tarde de quarta-feira, na Quinta do Conde, após uma longa espera por assistência médica, com a ambulância mais próxima a mais de 30 quilómetros.
O Tribunal de Santarém condenou a prisão efetiva um homem responsável por três incêndios florestais, dois deles junto a zonas habitadas. A autoria foi confessada e considerada plenamente provada, apesar da tentativa de disfarçar os crimes alertando o 112.