Arde o coração de Praga

O sacrifício de Jan Palach foi um grito pela liberdade e o símbolo de um combate que continua vivo.

No início de cada ano, lembro-me de quando fui a Praga e tinha como objectivo principal chegar ao topo da Praça de S. Venceslau, concretamente ao local onde Jan Palach se regou de gasolina e pegou fogo a si próprio, em 1969. Aí encontrei a cruz memorial no chão, que ondeia acompanhando a calçada. Ajoelhei-me e pareceu-me sentir o movimento…

O gesto sacrificial de Jan fazia parte da mitologia militante da minha adolescência, mas ali tornava-se real. O seu acto trágico contra os tanques soviéticos que esmagaram a Primavera de Praga era um símbolo tanto da luta anticomunista como da liberdade europeia. Estávamos em plena Guerra Fria e este não era apenas um protesto isolado ou nacional. Enquadrava-se num movimento que vinha de Ryszard Siwiec, em Varsóvia, e de Vasyl Makuch, em Kiev, que se haviam auto-imolado no ano anterior. A seguir, haveria novos casos na Checoslováquia, como o de Jan Zajíc, e em Budapeste, Sándor Bauer faria o mesmo, além de Ilja Rips, em Riga.

Jan Palach morreu no hospital três dias depois e o seu funeral, realizado em Praga a 25 de Janeiro, juntou cerca de 200 mil pessoas, transformando a cerimónia num protesto silencioso pela liberdade.
No entanto, seriam necessárias mais duas décadas para que o desejo de Palach se concretizasse. Em Janeiro de 1989, quando o Partido Comunista da Checoslováquia ainda detinha um forte poder, o vigésimo aniversário da morte de Palach gerou manifestações em larga escala, marcadas por confrontos com a polícia e que levaram a centenas de detenções. Foi o prenúncio da chamada Revolução de Veludo, que no final desse ano pôs fim ao regime comunista.

Há a coincidência de Palach ter escolhido o mês de Jano, o Deus romano que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, o mais propício às mudanças. Quase 60 anos depois, o seu sacrífico não perdeu o sentido e este Janeiro apresenta-se auspicioso.

Um desses sinais foi a mensagem de Giorgia Meloni, que assinalou a data com as seguintes palavras: «Jan Palach era um jovem estudante checoslovaco que, em 16 de Janeiro de 1969, sacrificou a sua vida para protestar contra a opressão soviética e a aniquilação da liberdade do seu povo. O seu gesto extremo foi um grito contra o totalitarismo, um acto de coragem que abalou a Europa e que continua a ser um aviso eterno: a democracia não é sempre garantida, deve ser defendida e preservada todos os dias. Jan Palach é um mártir europeu da liberdade, não o esqueçamos.»

Gostei de ver como a Presidente do Conselho de Ministros de Itália não esqueceu a sua jovem militância e noto como também não esqueci a minha. Os salad days, como lhes chamou Shakespeare na tragédia António e Cleópatra, em que o nosso «julgamento era verde e o nosso sangue frio», como se lamentava Cleópatra dos seus anos com Júlio César, podem ter sido tão irreverentes como excessivos, mas deram-nos os fundamentos, transmitiram-nos os valores e temperaram o carácter.

Hoje, imbuído do mesmo espírito, recordo-me como cantávamos o inspirador Requiem por Jan Palach, magnífico poema do José Valle de Figueiredo, e a plenos pulmões repetíamos:
Arde o Coração de Praga,
arde o corpo de Jan Palach,
arde o corpo do Futuro.
E já cresce a Primavera!

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