Portugal habituou-se perigosamente à governação por reacção, onde espera-se que a crise chegue, monta-se o cenário mediático, alinham-se comunicados solenes e entoa-se, em uníssono, o velho refrão, “vamos avaliar”, em que a prevenção é tratada como luxo, a responsabilidade como incómodo e o planeamento como exercício académico, porque entre PowerPoints e relatórios, esquecemo-nos de uma evidência simples, gráficos não apagam incêndios, comunicados não restabelecem energia e conferências de imprensa não substituem liderança.
Décadas de improviso criaram um Estado estruturalmente frágil, onde cada emergência repete o mesmo guião, onde investimentos, como o SIRESP, acabaram por expor mais falhas do que soluções, enquanto a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil navega entre planos e procedimentos como se a burocracia fosse uma barreira contra a realidade, em que faltam geradores, faltam decisões rápidas, faltam lideranças firmes, mas sobram estudos intermináveis e frases feitas, esse verdadeiro Hino Nacional da incompetência política.
A ironia maior é que a História já nos deixou o manual essencial da liderança, onde Abraham Lincoln lembrava que “governar é agir com firmeza no que é certo”, Winston Churchill provou que, “em tempos difíceis, não se distribui retórica, distribui-se coragem”, John F. Kennedy “apelou ao serviço público acima do conforto pessoal” e, em Portugal, Francisco Sá Carneiro defendia “um poder ao serviço dos cidadãos, não das máquinas partidárias”.
Hoje, porém, parece que essa herança foi substituída por uma versão burocrática da liderança, prudência virou inacção e planeamento passou a significar adiamento eterno, em que sob os governos socialistas de António Costa, com a validação permanente de Marcelo Rebelo de Sousa, consolidou-se um modelo político reactivo, especialista em correr atrás do prejuízo, onde primeiro acontece a catástrofe, depois surge o coro do “iremos dar resposta”, segue-se o clássico “temos de estudar”, é um ciclo vicioso, pois a prevenção fica para amanhã, a responsabilidade dilui-se hoje e o cidadão aprende a viver com um Estado que só aparece depois do estrago feito, onde muitos chamam-lhe “governação moderna”, mas muitos já lhe chamam “amadorismo institucional”.
Portugal não precisa de gestores de crise nem de distribuidores de promessas, precisa de líderes que preparem antes, decidam depressa e executem melhor, precisa de políticos competentes, capazes de trocar propaganda por resultados, relatórios por acção e conferências por soluções concretas, precisa de um Estado que planeie como quem respeita vidas, que invista como quem protege bens e que Governe com sentido de missão, porque o ruído institucional não salva pessoas, não reconstrói casas e muito menos um País.
As perguntas, afinal, são simples e incómodas, até quando aceitaremos o “logo se vê” como política pública? Quantas crises mais serão necessárias para percebermos que prevenir custa menos do que remediar? Quando é que exigiremos calendários com metas, responsáveis com nomes e decisões com prazos? Estamos dispostos a trocar o conforto da resignação pela exigência da cidadania? E, sobretudo, que tipo de País queremos deixar, um arquipélago de promessas adiadas ou uma República que aprende, prepara e age?
Vale a pena pensarmos nisto muito seriamente!