Silêncio da China pode indicar “problemas” económicos

A especialista em assuntos económicos chineses Christiane Prange considera que um maior silêncio do governo da China pode indicar dificuldades ao nível económico, a nível interno e externo.

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Na semana em que terminaram as duas sessões do órgão máximo legislativo da China, a Assembleia Nacional Popular, a especialista recordou a ausência da tradicional conferência de imprensa do primeiro-ministro chinês, Li Qiang, “o que significa que existem provavelmente mais problemas do que aqueles que podemos ver e que são voluntariamente comunicados ao público”.

“Tipicamente, quando a China tem boas notícias, o país fala sobre isso. Quando há silêncio é porque algo se passa”, disse em entrevista à Lusa em Lisboa a professora de Estratégia e Negócios Internacionais.

“Penso que este é um indicador de que existem problemas sérios”, afirmou Prange, que enumerou dificuldades ao nível do setor económico, desde o consumo interno até à dupla circulação, ou seja, os âmbitos interno e o externo.

A especialista é autora do livro “Xiconomics: What China’s Dual Circulation Strategy Means for Global Business” recentemente apresentado nas Conferências da Primavera, do Centro Cultural e Científico de Macau, em Lisboa.

A nível externo, as dificuldades para os asiáticos relacionam-se com os Estados Unidos, tarifas comerciais e eventuais “conflitos comerciais futuros”, bem como a dependência do Ocidente em “alguns recursos muito importantes”, por exemplo, semicondutores.

Já a dependência ocidental está, nomeadamente, ao nível dos minérios, terras raras, “e se não puderem ter acesso (a estas matérias-primas), isso irá restringir drasticamente a economia e também o mercado-alvo”, frisou Prange.

A China pretende ter um papel determinante no ciclo externo, por isso integra vários organismos internacionais, definiu os seus padrões e recusou continuar a ser o local dos produtos de baixo custo, apostando num “desenvolvimento justo”, afirmou.

A nível interno, a especialista notou a “espécie de dilema” que Pequim enfrenta, ao ter de garantir emprego estável e rendimento às pessoas e que estas vejam “o país a crescer e a tornar-se mais próspero” e “por outro lado, precisa de garantir que o Partido Comunista se mantém no poder e que pode aplicar a sua ideologia política”.

“E fazer as duas coisas ao mesmo tempo é cada vez mais difícil, especialmente como temos visto desde a (pandemia) Covid-19”, um período em que também se registaram muitos protestos, como o Movimento do Livro Branco, recordou.

Christiane Prange garantiu não estar em causa uma revolução, mas “as pessoas tornarem-se mais críticas” e “se a economia falhar, isso poderá eventualmente significar também que o poder do Partido Comunista diminui”.

A China tem enfrentado uma taxa elevada de desemprego entre os jovens, que tradicionalmente devem ajudar os mais idosos, “numa malha apertada de ligações sociais” e, se os jovens não encontrarem empregos adequados as consequências são mais amplas e “toda a família está em jogo”.

Prange elencou outras mudanças demográficas, uma vez que muitos jovens não querem formar família devido a custos e também preferem “gozar a vida”, nomeadamente no âmbito da tendência ‘tang ping’ (rejeitar o excesso de trabalho).

Outro elemento destacado pela autora é a “ênfase dada na inovação” de forma a aumentar o valor da cadeia, designadamente a partir de programas como “Inovação Feita na China 2025”, estando as universidades a integrar aspetos mais inovadores ou criativos, a par da aprendizagem tradicional.

“Há uma contradição, o que significa que a mão-de-obra que pode criar esses saltos para elevar a cadeia de valor ainda está em falta”, destacou a investigadora, indicando que a pandemia Covid-19 fez diminuir “drasticamente” o número de especialistas externos do setor da tecnologia, em que as empresas também passaram a ter mais regulamentação.

Questionada Taiwan, que acolhe uma produção importante de semicondutores, a autora citou simulações sobre o que aconteceria se a China invadisse Taiwan com uma força militar e que mostraram que “em 50 anos, a economia cairia a pique e teriam dificuldades em recuperar o atraso”.

“Por isso, apesar de o risco ter vindo a aumentar, não creio que haja um perigo imediato de a China tomar Taiwan pela força, mas, mais uma vez, vemos que a China utiliza o seu poder simbólico”, concluiu.

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