Pneumologistas alertam para casos de doença respiratória grave causada por cigarro eletrónico

A Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP) alertou hoje que já foram registados em Portugal vários casos de doença respiratória aguda grave causada pelo uso de cigarros eletrónicos, que obriga a internamento e pode levar à morte.

© D.R.

 

“Já estamos a assistir a casos clínicos muito graves” de Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarro Eletrónico, conhecida como EVALI, disse a coordenadora da Comissão de Tabagismo da SPP, Sofia Ravara, que falava à agência Lusa a propósito do Dia Mundial Sem Tabaco, que se assinala na sexta-feira.

Segundo a especialista, é uma doença caracterizada por dificuldade respiratória aguda com necessidade de hospitalização, inclusivamente nos cuidados intensivos com ventilação mecânica.

Em 2019, o Centro de Controle e Prevenção de Doença dos Estados Unidos reportou uma epidemia de EVALI, informando que até fevereiro de 2020 tinham sido hospitalizadas 2.807 pessoas (80% jovens), das quais 68 morreram e algumas tiveram necessidade de transplante pulmonar.

Devido à pandemia de covid-19, a monitorização dos casos de Evali foi interrompida nos EUA, mas continuam a ser relatados casos neste país e na Europa.

“Os pneumologistas europeus têm um grupo de trabalho em que têm reportado diversos casos de doença respiratória aguda muito grave em pessoas muito jovens [utilizadores de cigarros eletrónicos] que não têm outros fatores de riscos para doença respiratória e não eram fumadores”, salientou a especialista.

Pneumologistas portugueses também identificaram vários casos, tendo inclusivamente sido relatado no ano passado, no Congresso da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, um caso “muito grave” de um jovem que foi internado no hospital de Castelo Branco.

“E existem casos dispersos que até poderão não estar diagnosticados e terem sido rotulados como pneumonia, porque não existe um registo de casos sistematizado, como aconteceu nos EUA, e porque alguns profissionais de saúde podem não estar tão alerta” para estas situações, explicou.

Para Sofia Ravara, os especialistas deviam questionar quando um doente é internado por dificuldade respiratória grave, com necessidade de oxigenoterapia ou outra intervenção mecânica, sobre o seu comportamento tabágico e se utilizam os novos produtos do tabaco, nomeadamente cigarros eletrónicos.

A pneumologista adiantou que os especialistas também já estão a tratar pessoas que usam tabaco aquecido e “começam a adoecer na idade entre os 40 e 50 anos com doença cardíaca (enfartes, AVC), e também com um síndrome de queixas respiratórias recorrentes e dificuldade respiratória”.

Diversos estudos indicam que os cigarros eletrónicos podem causar sintomas e doença respiratória em adolescentes e jovens como asma, bronquite, pneumonia, inflamação e irritação do trato respiratório com sintomas recorrentes de tosse, aperto torácico e falta de ar, dificuldade respiratória aguda, bem como elevar a pressão arterial e a frequência cardíaca.

O inquérito nacional escolar de 2019 mostra que o consumo de tabaco nos mais jovens (13-18 anos) diminuiu entre ambos os sexos, comparativamente aos dados de 2015, mas a experimentação e uso dos novos produtos (cigarros eletrónicos, sisha e tabaco aquecido) está a tornar-se mais significativa.

Esta tendência foi reforçada no inquérito nacional escolar de 2022 (SICAD, 2023, dados preliminares), mostrando um aumento no consumo dos produtos de tabaco e nicotina nos jovens à custa da sua experimentação.

Relativamente à iniciação do consumo, em 2019, 38,4% dos alunos do ensino público, disseram já ter experimentado fumar ou vapear. A experimentação foi mais alta nas raparigas (40,7%), do que nos rapazes (36,3%).

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