Há um vício que se alastra pelo jornalismo contemporâneo : a interrupção constante, ansiosa e ostensiva dos convidados políticos, independentemente do seu quadrante ideológico. Não se trata de vigilância democrática, nem de escrutínio sério; trata-se, antes, de uma encenação ruidosa onde o jornalista se coloca no centro do palco, não como mediador esclarecido, mas como protagonista vaidoso de um combate que só existe para as câmaras.
O entrevistador que interrompe compulsivamente não procura respostas; procura armadilhas. Formula perguntas não para compreender, mas para “entalar”, não para informar o público, mas para colher um momento de embaraço, um tropeção verbal que possa ser reciclado em manchete ou um avassalador excerto viral. Esta prática profundamente desleal revela uma concepção pobre da profissão e um desprezo mal disfarçado pelo espectador, tratado como um consumidor de espectáculos e não como um cidadão pensante.
Nestes interrogatórios travestidos de entrevistas, existe uma agressividade que roça a má-educação. O político é convidado — não convocado para um tribunal sumário — e, no entanto, mal inicia uma frase, é cortado, corrigido, atropelado por apartes e insinuações. O raciocínio deste é impedido de se desenvolver e a sua possível explicação é sufocada antes de ganhar qualquer forma. Depois, com alguma regularidade cínica, acusa-se o entrevistado de não responder.
Mais grave ainda é a cobardia intelectual subjacente às chamadas “perguntas com armadilha”. Este comportamento não fortalece a democracia; corrói-a! Substitui o debate pelo ruído e a escuta pela interrupção. Um jornalista que não sabe ouvir impõe-se; e ao impor-se, trai a sua função essencial, a de esclarecer.
Os contribuintes merecem ouvir, de forma clara e contínua, aqueles que os representam. Merecem escutar ideias completas, raciocínios articulados e posições assumidas sem o constante abafamento de interrupções oportunistas. Cada palavra cortada é uma parcela de informação subtraída ao cidadão, que paga ( literal e democraticamente ) para ser informado, não para assistir a um duelo de egos.
Do mesmo modo, os contribuintes merecem um jornalismo isento de qualquer militância política, explícita ou disfarçada. O jornalista (em função) não pode ser activista, nem procurador, nem candidato frustrado.
Quando a entrevista se transforma num exercício de hostilidade selectiva ou num julgamento enviesado, a informação cede lugar à propaganda e a confiança pública dissolve-se.
Um país onde o povo deixa de confiar na imprensa é um país mais pobre, não apenas em informação, mas em liberdade.