“Vamos ter agora um período de duas semanas que é o mais crítico para o afogamento em Portugal, em que temos praias não vigiadas, muita gente de férias e bom tempo”, afirmou o presidente da FEPONS, Alexandre Tadeia, apelando ao “máximo cuidado”.
Os dados da federação, relativos a anos anteriores, levam a classificar esta fase do ano como “terrível” no que toca a afogamentos, com Alexandre Tadeia a alertar que “toda a gente deve ter o máximo cuidado, não se aproximar da água”, porque “as condições aquáticas não são propícias ao lazer”.
De acordo com o presidente da FEPONS, “nos anos anteriores estas duas semanas [do período da Páscoa] têm estado com valores muito acima da média do afogamento”, já que a média de mortes por afogamento é de “4,96 por quinzena” e nos “anos anteriores [na quinzena da Páscoa] os valores têm sido o dobro e, em alguns anos, até quatro vezes mais”.
A título de exemplo, acrescentou: “em 2024, neste período, tivemos 20 mortos por afogamento em Portugal.”
Números que levam a federação a reafirmar a necessidade de alargar a vigilância nas praias a todo o ano, face ao clima que favorece a frequência destas fora da época balnear.
“Essa vigilância durante todo o ano viria, efetivamente, salvar vidas”, afirmou, defendendo a implementação de um sistema semelhante ao de outros países onde existe “um grupo de nadadores-salvadores durante todo o ano a vigiar as praias”.
Em zonas de Portugal onde as praias são vigiadas todos o ano, “como, por exemplo, a Nazaré, não houve mais mortos fora da época balnear”, lembrou, vincando a “evidência de que estes sistemas funcionam mesmo com estas condições [de mar]”.
Federação preocupada com falta de nadadores-salvadores no arranque da época balnear
A Federação Portuguesa de Nadadores-Salvadores (FEPONS) manifestou-se “preocupada” com a falta de nadadores para assegurar o arranque da época balnear nas praias portuguesas e alertou para a urgência em alterar a lei que rege o setor.
“Todos os anos, em média perdemos aproximadamente 50% dos nadadores-salvadores”, disse à agência Lusa o presidente da Federação Portuguesa de Nadadores-Salvadores (FEPONS), Alexandre Tadeia, expressando “a preocupação de não se saber com quantos profissionais se poderá contar” no arranque da época balnear de 2026.
De acordo com este responsável, em Portugal há mais de cinco mil nadadores-salvadores certificados para efetuar a vigilância das praias, na sua maioria com “o perfil de jovens estudantes universitários que, quando acabam a sua formação universitária, acabam por procurar outras opções de emprego”.
Este fator, que “todos os anos obriga a formar cerca de metade” dos nadadores-salvadores necessários, concorre para que a federação de debata anualmente com a escassez de profissionais no arranque da época balnear.
“Sendo jovens estudantes universitários, normalmente só estão disponíveis a partir da metade do mês de junho ou início do mês de julho, o que levanta, de facto, grandes problemas no arranque da época balnear, ainda mais para aquelas zonas do país em que a época balnear se inicia logo no início ou a meio de maio”, explicou Alexandre Tadeia.
À semelhança das últimas épocas balneares, no próximo verão a falta de profissionais deverá ser colmatada com o recurso “a mão de obra estrangeira [maioritariamente do Brasil e da Argentina], que normalmente já está disponível nesta altura do ano”.
Mas, para Alexandre Tadeia, urge “criar um outro sistema que, de facto, não tenha uma época balneária apenas focada em três ou quatro meses”, pondo fim ao conceito de época balnear, já que, a maioria das praias portuguesas “são utilizadas durante todo o ano”.
A FEPONS defende uma alteração da legislação e do sistema de assistência a banhistas em Portugal “para um sistema semelhante àquele que existe nos bombeiros, com uma entidade central, o Instituto Socorros a Náufragos, a coordenar, e associações de nadadores-salvadores, sem fins lucrativos, a prestarem o socorro cada uma com a sua zona”.
Para a Federação é também imperativo que as autarquias assumam “esta área que já é da sua competência desde 2018, mas algumas ainda continuam a empurrar para os concessionários de praia esta obrigação”.
Os concessionários “têm de ser retirados desta equação”, defendeu Alexandre Tadeia, considerando que, por um lado, “não têm a mínima lógica serem eles a pagar aos nadadores-salvadores e a comprarem o material” e, por outro, o Estado “tem de olhar para este setor com uma perspetiva humanitária e não com uma perspetiva comercial”, com empresas “a concorrer umas com as outras para ver quem é que dá o valor mais baixo para vigiar uma praia”. Até porque, sublinhou, “misturar salvamento e dinheiro, normalmente dá em mau resultado”.
A solução para a escassez de vigilantes nas praias passa ainda, no entender de Alexandre Tadeia, por melhorar a remuneração e condições de trabalho dos nadadores, que “são técnicos de socorro, passam por uma formação muito exigente, de 150 horas e devem ser olhados com respeito”.
A preocupação com o arranque da época balnear agrava-se este ano face os impactos das tempestades que assolaram o país no mês de fevereiro, “já que muitas zonas do país perderam muita areia, há muitas zonas destruídas e, portanto, há muito trabalho a fazer para que se consiga chegar à época balnear e haver condições para os banhistas frequentarem as praias”.
Nesta área, sob jurisdição da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), a FEPONS limita-se a “ajudar no levantamento de necessidades”, quando solicitada, desconhecendo quais as praias que estarão em condições de receber banhistas no arranque da época.
Segundo o Relatório Nacional de Afogamento 2024, do Observatório do Afogamento da FEPONS, foram registadas nesse ano 121 mortes por afogamento em Portugal continental, uma redução de 21,9% face a 2023, quando se contabilizaram 155 óbitos.
Em 2024, os locais com maior número de ocorrências foram o mar (41,3%), seguido pelos rios (31,4%) e poços (9,9%).
De acordo com a FEPONS, a maioria das mortes ocorreu em locais sem vigilância por nadadores-salvadores e o número mais elevado de afogamentos verificou-se em abril, com 21,5%.
Em 2025, até ao final de maio, 49 pessoas morreram afogadas, o terceiro valor mais alto desde 2017, segundo dados do relatório.