“Persona non grata” no parlamento

A expressão “persona non grata” vem do latim e significa literalmente “pessoa não grata”

ou “pessoa indesejável” e tem a sua origem no direito diplomático internacional, tendo a

expressão ganho um uso formal através da Convenção de Viena sobre Relações

Diplomáticas de 1961 onde é especificado que um país anfitrião pode, a qualquer

momento e sem necessidade de justificação, declarar um diplomata estrangeiro como

“persona non grata”, expulsando-o ou proibindo-o de exercer as suas funções de forma a

proteger a sua própria soberania e interesses.

Fora do campo diplomático, a expressão poderia ser utilizada no contexto político como,

por exemplo, na Assembleia da República. Nesse contexto, “persona non grata” poderia

ser aplicado a qualquer pessoa que perca a confiança do seu partido ou grupo

parlamentar, sendo rejeitada ou considerada indesejável devido ao seu comportamento

ou atitudes que possam comprometer a integridade ou o bom nome da instituição, do

partido ou da própria Assembleia. A perda de mandato deveria ser uma consequência

imediata e irrevogável quando um deputado deixa de representar os interesses e valores

do partido pelo qual foi eleito. Esta medida é especialmente crucial considerando que o

deputado foi eleito não apenas por seus méritos individuais, mas sobretudo pela

confiança que os eleitores depositaram no programa e nos princípios do partido. Aos

olhos dos portugueses é imoral, degradante para a credibilidade das instituições e

profundamente condenável que um deputado possa passar a independente, infringindo

códigos de conduta e traindo a confiança do eleitorado que o escolheu como

representante de uma determinada força política. A manutenção do mandato nestas

circunstâncias representa uma violação do contrato moral estabelecido com os eleitores

e uma distorção do próprio sistema de representação democrática, justificando assim a

implementação de mecanismos legais mais rigorosos para garantir a perda automática do

mandato em tais situações.

Ademais, esse gesto não se refere a uma condenação pública, pois à luz do Direito todos

são inocentes até prova em contrário. Significa sim um convite à reflexão profunda sobre

a responsabilidade ética que acompanha a função pública. Numa sociedade democrática

os valores materiais não se podem sobrepor aos valores morais. A dignidade, o respeito

pelo voto popular e pela confiança política depositada devem ser sempre uma prioridade.

Portanto, ser capaz de abdicar dos benefícios e privilégios de uma função em nome da

honra e do bom nome é um acto que eleva a pessoa, demonstrando caráter e

compromisso com o bem comum, garantindo que a confiança dos eleitores não seja traída

mantendo o respeito pelos princípios que norteiam a democracia e o pelo funcionamento

do próprio Parlamento.

Artigos do mesmo autor

Uma deputada eleita pelo PCP lamentou o desaparecimento da União Soviética. “A União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente, porque de facto foram anos extraordinários para o povo.” Entre os anos 30 e o início da década de 1950, milhões de pessoas passaram pelo sistema de campos que Estaline consolidou. O Gulag manteve uma sociedade inteira submissa através do medo, do trabalho forçado e do silêncio. Estimam-se entre 1,2 e […]

O português nasce acorrentado por hábitos, medo e resignação. Ensinaram-no a ser quieto, previsível e agradecido pelo mínimo. Trabalha para sobreviver e paga para existir. E quando chega ao fim do mês exausto, ainda lhe dizem que devia sentir-se privilegiado. Salários baixos. Rendas sem controlo. Contas a subir mais depressa do que a vida. E […]

Existe uma herança que o socialismo partilha, sem pudor, com cada regime totalitário que a História registou, apesar de alguns negarem o óbvio. A convicção de que a vontade política dobra a realidade. O socialismo português foi um projecto contínuo de ocupação das instituições, das consciências e da linguagem. Um molde aplicado ao país com […]

Havia, numa quinta afastada do mundo, um porco que vivia como se tudo tivesse sido feito para ele. Não por mérito, mas por uma ordem qualquer, meio invisível, meio absurda, que ninguém se deu ao trabalho de explicar. O frio não o afectava. O estábulo envolvia-o num calor manso, quase sonolento, como se o tempo […]

Von der Leyen é o maior erro estratégico da Europa