Traição: Marcelo quer indemnizar ex-colónias

“Portugal deveria indemnizar as ex-colónias por crimes da era colonial”. Quem o disse foi o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no passado dia 24 de abril, numa conversa informal com jornalistas estrangeiros, no Vila Galé Ópera, em Lisboa, e não ficou por aqui.

© Folha Nacional

“Portugal deveria pagar os custos”, continuou Marcelo e atirou mesmo que o país deveria “reparar” alegadas “ações que não foram punidas e responsáveis que não foram presos”.
A verdade é que este não é um assunto novo para o Presidente da República. Há um ano, na sessão de boas-vindas ao Presidente brasileiro Lula da Silva, que antecedeu a sessão solene comemorativa do 49.º aniversário do 25 de Abril, na Assembleia da República, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que Portugal “devia um pedido de desculpa”, mas acima de tudo que devia “assumir a responsabilidade pela exploração e pela escravatura no período colonial”.
Já no passado sábado, em tentativa de descartar a polémica por detrás das suas palavras, Marcelo considerou que é sempre necessário “assumir a responsabilidade por aquilo que de bom e de mau houve no império”.
“Sempre achei que pedir desculpa é uma solução fácil para o problema. O assumir significa, de facto, isso”, enfatizou o chefe de Estado, alertando também para o facto de que Portugal “tem a obrigação de pilotar e de liderar este processo”, pois caso contrário, poderá “acontecer o que aconteceu com países que, ao fim de x anos perderam a capacidade de diálogo com as antigas colónias”. Em reação a estas declarações, o presidente do CHEGA apontou o dedo a Marcelo e acusou o chefe de Estado de “traição à pátria”.
“O Presidente não foi o representante de Portugal, foi o representante dos outros países, mas ele não foi eleito por Angola, nem Cabo Verde, nem por Timor, nem pelo Brasil. Ele foi eleito pelos portugueses e ele não se deve esquecer disso”, incriminou André Ventura, sublinhando que “pediria a destituição” do chefe de Estado, “se isso fosse possível” no plano constitucional em Portugal. André Ventura fez ainda sobressair que prevê avançar com uma moção de censura ao Governo, caso Luís Montenegro avance com algum tipo de indemnização às ex-colónias.
“No dia em que este Governo português der a compensação que seja, ou a indemnização que seja a uma antiga colónia, desonrando brutalmente a nossa História, podem ter a certeza de uma coisa: a moção de censura ao Governo entra nesse dia”, assegurou.
Do outro lado do oceano, opiniões também se fizeram ouvir. A Ministra da Igualdade Racial do Brasil, como por exemplo, pediu medidas concretas ao Governo português.
“É realmente muito importante e contundente essa declaração”, afirmou Anielle Franco, celebrando que “pela primeira vez, está a ser feito um debate dessa dimensão a nível internacional”.
“A nossa equipa já está em contacto com o Governo português para dialogar sobre como agir e quais os passos que deverão ser tomados”, garantiu Anielle Franco, deixando claro que as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa foram bem recebidas pelo governo brasileiro.
Note-se que em todas a suas declarações, Marcelo Rebelo de Sousa não dedica uma palavra de consideração aos ex-combatentes. Ao que André Ventura relembra o papel destes “portugueses, que contribuíram de forma significativa para o desenvolvimento das colónias, regressaram a uma pátria que pouco tinha para lhes oferecer, e muitos ainda lutam com as consequências dessa deslocação forçada”.
“Ignora o sacrifício pessoal destes homens e suas famílias e perpetua uma injustiça ao não valorizar igualmente todas as partes protagonistas da história colonial de Portugal”, escreveu o CHEGA em comunicado.
Recorde-se que os ex-combatentes manifestaram o seu descontentamento, nos dias 15 e 16 de abril, em frente à Assembleia da República, contestando que o estatuto de ex-combatente é “uma mão cheia de nada”.
“Há 50 anos estão prometidas diversas regalias e o que acontece é que quando foi aprovada uma mão cheia de nada”, defendeu, na altura, António Araújo da Silva, dirigente do Movimento Pró-Dignidade ao Estatuto do Combatente, em declarações à Lusa. António Araújo da Silva relembrou ainda a situação dos antigos combatentes recrutados nas ex-colónias, cidadãos naturais de países como Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau, que combateram nas Forças Armadas portuguesas, mas não são abrangidos por algumas compensações por não terem registos de carreira contributiva em Portugal. “Com mais de 70 anos, estamos carregados de problemas graves de saúde. Se não tivéssemos ido à guerra não teríamos motivo. Muitos dos meus camaradas vieram de lá com graves problemas de saúde e estão cá e quem é que lhes vai pagar a medicação?”, interrogou António Araújo da Silva.
O movimento pediu para ser recebido “de forma urgente” pelo Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo. Algo que até ao momento ainda não aconteceu. Marcelo Rebelo de Sousa arrancou, esta terça-feira, uma visita a Cabo Verde para participar nas comemorações dos 50 anos da libertação dos presos do Campo de Concentração do Tarrafal.

Últimas de Política Nacional

O primeiro-ministro anunciou hoje que o Governo quer aprovar a versão final do PTRR no início de abril e o envelope financeiro só será definido após o período de auscultação nacional.
O CHEGA/Madeira apresentou um voto de protesto na Assembleia Legislativa regional pelas declarações do líder parlamentar do PSD na Assembleia da República, Hugo Soares, no âmbito do debate sobre o subsídio social de mobilidade realizado na quarta-feira.
O CHEGA propôs a revisão do regime jurídico do uso de armas de fogo, defendendo o alargamento das situações em que os agentes podem disparar, nomeadamente para travar suspeitos de crimes graves, armados ou a atuar em grupo. A iniciativa foi, contudo, chumbada com os votos contra de PSD, PS e Iniciativa Liberal.
O presidente do CHEGA sustenta que a polícia tem de poder agir sem receio quando está em causa a segurança dos cidadãos, e acusa o sistema de desproteger quem protege.
O uso de armas de fogo pelas forças de segurança poderá passar a ser permitido em mais situações do que as atualmente previstas na lei. É essa a proposta apresentada pelo CHEGA, que pretende rever profundamente o regime jurídico em vigor desde 1999.
O líder do CHEGA apontou falhas graves na resposta às tempestades e responsabilizou o Executivo por atrasos, descoordenação e decisões que deixaram populações entregues a si próprias.
Um dos maiores escândalos sexuais e de poder da última década volta a ecoar em Portugal. O CHEGA quer saber se o tentáculo da rede de Jeffrey Epstein alguma vez tocou o país e exige que todas as eventuais ligações portuguesas sejam investigadas até às últimas consequências.
O primeiro-ministro regressa esta quinta-feira ao parlamento para um debate quinzenal que deverá centrar-se na resposta do Governo às consequências do mau tempo e que foi adiado por duas vezes na semana passada.
Entre devoluções e penalizações que rondam os 85 mil euros, o vereador do PSD permanece no executivo da Maia. O presidente da Câmara reafirma a confiança política.
A vítima não deve ser obrigada a sair de casa para se proteger do agressor. É este o princípio que sustenta o novo projeto de lei apresentado pelo CHEGA, que pretende permitir o afastamento imediato dos suspeitos de violência doméstica, mesmo antes de decisão judicial definitiva.