Falta em Portugal uma política de defesa e promoção da língua

O investigador e antigo reitor do ISCTE-IUL Luís Reto lamentou, em declarações à Lusa, que Portugal continue sem ter uma política de defesa e promoção da língua portuguesa.

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“Em Portugal já houve alguma coisa. Ultimamente tem sido um disparate completo. Não tem havido política nenhuma de língua. Espero que o Brasil, que agora criou o Instituto Guimarães Rosa, que é um paralelo do instituto Camões, seja um motor desta política de língua na CPLP”, acrescentou.

“O nosso problema é não termos de facto uma política e isso é essencial. No fundo, se quiser, nós temos um ativo que não somos capazes de potenciar”, reiterou Luís Reto, coordenador do estudo “Potencial Económico da Língua Portuguesa”.

No estudo, o investigador analisou quatro variáveis: o investimento direto estrangeiro, turismo, fluxos migratórios e comércio externo.

“Só que, de facto, como nós não temos, ao contrário dos espanhóis e outros, que têm de facto grandes anuários sobre a língua, infelizmente nunca tivemos uma política a sério de língua. Espero que alguém tome conta disto”, acrescentou.

A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), ratificou no dia 25 de novembro de 2019 a celebração do Dia Mundial da Língua Portuguesa em 05 de maio, tornando oficial a proposta apresentada pelos países lusófonos.

Apesar da falta de uma política de defesa e promoção, Luís Reto considerou que a “língua portuguesa recomenda-se. Está a crescer”, assente na demografia dos países africanos de língua portuguesa.

Com base nas projeções da UNESCO, África é o continente que mais cresce neste século em termos de população e por esse motivo, a língua portuguesa será a língua que mais vai crescer a par do árabe e na Internet está entre o quarto e quinto lugar das mais utilizadas.

“Quando se fala de línguas, isto é muito complexo, são muitos indicadores. A língua tem muitas funções, tem funções de identidade, é a primária, é identidade de tribo, da família, de nação. Depois tem funções de ensino, tem funções de ciência, tem funções de economia, tem outras funções, mas há poucas línguas que consigam ter estas funções todas, digamos assim, e que sejam línguas, inclusive, de comunicação internacional”, considerou.

A dispersão geográfica torna a língua portuguesa “estrategicamente mais importante” do que o castelhano, por exemplo, que é falado somente nos continentes americano e europeu.

Quanto ao potencial económico de uma língua, Luís Reto sublinha o seu valor direto nas chamadas indústrias da língua, como é todo o setor editorial, livros, publicações e depois o setor todo de ensino, traduções e intérpretes.

“Por exemplo, se a língua estiver em muitas organizações internacionais, têm muitos intérpretes. Depois tem a presença também na Internet. Portanto, eu diria que há aqui uma parte que é um fator diretamente ligado à língua e depois há outros, que a língua é mais subsidiária, mas é também importante, que é tudo o que é indústrias culturais e criativas: televisão, rádio, redes sociais, teatro, cinema, música e por aí fora”, adiantou.

“Toda esta componente contribui para um outro valor da língua, que é um valor incorpóreo, se quiser é um valor não medível diretamente, que é o fator de influência, a que os norte-americanos chamam o ‘soft power’”, vincou.

Defensor de políticas concertadas dos países lusófonos para a defesa e promoção da língua portuguesa, Luís Reto elogiou o Presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que disse querer durante o seu mandato assegurar que o português seja língua oficial na ONU, onde existem seis línguas oficiais e o português seria a sétima.

“Se nós formos analisar essas seis línguas oficiais por quatro indicadores, que é o número de falantes, o número de países que inclui a língua oficial, número de continentes onde a língua está e o número de organizações internacionais que tem como língua de tradução, de trabalho ou língua oficial, nós, nesses seis estamos melhor classificados que muitos deles”, destacou.

“Ou seja, não é por causa da língua que nós não estamos lá. É pelo trabalho que nós não temos feito que não estamos lá”, lamentou.

Tornar a língua portuguesa um dos idiomas oficiais da ONU deve custar cerca de 80 milhões de euros por ano, porque é preciso pagar toda a estrutura para os intérpretes de traduções.

“Aí é uma estratégia que os países têm que assumir. Precisa haver concertação diplomática para estabelecer uma lista de prioridades. É preciso investimento. Mas isto só para dizer que não há uma política de língua assumida. Ou seja, a nossa língua é muito mais importante do que a importância que nós lhe damos”, voltou a lamentar.

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