“Guardas Prisionais entre muros de pé todos os dias, apesar do cansaço – Escala Maslach Burnout Inventory (MBI) atingiu valores máximos”

As diversas especificidades da atividade e da cultura organizacional do Corpo da Guarda Prisional continuam a ser identificadas como fatores subjacentes às mudanças no funcionamento operativo. De facto, a instabilidade e a exigência, do contexto em que desempenham funções expõem, de forma constante, todos os profissionais a riscos e a um elevado nível de escrutínio da sua atuação. Estes elementos contribuem para o reconhecimento da atividade operacional como uma das profissões com maior exposição a fatores de risco, frequentemente associados a elevados níveis de stress e ao aumento da probabilidade de desenvolvimento de Burnout, podendo, em situações mais graves, estar associados ao surgimento de ideação suicida.

Neste contexto, torna-se evidente a necessidade urgente de adotar uma abordagem cada vez mais preventiva face aos problemas relacionados com o stress, a exposição contínua a fatores stressores e a vivência da síndrome de Burnout, através da criação de mecanismos de proteção adequados.

Com base em dados concretos e estatísticas recolhidas ao longo de quatro anos de funcionamento da Linha de Apoio Psicológico ao Corpo da Guarda Prisional — que incluiu atendimentos, encaminhamentos, definição de estratégias, planos específicos e aplicação de inquéritos — esta realidade confirma-se de forma inequívoca.

Compete à DGRSP assumir a responsabilidade de investir na disponibilização de recursos que permitam reduzir o impacto dos eventos stressores, frequentemente potenciadores do Burnout, os quais afetam o desempenho profissional e a saúde dos seus profissionais e que, a médio e longo prazo, podem vir a constituir um risco acrescido para as suas vidas.

Na análise descritiva do Questionário de Vulnerabilidade ao Stress (QVS), especificamente no que respeita à pontuação total da subescala, observa-se que, para a amostra global, foi considerado um valor máximo de 3.65, sendo igualmente identificada uma média elevada (3.95), o que revela um agravamento da situação em si em relação aos dados anteriormente analisados no ano de 2023.

Estes resultados analisados indicam que os elementos do Corpo da Guarda Prisional apresentam um elevado nível de vulnerabilidade ao stress. No que respeita às categorias definidas para os níveis de Burnout à escala Maslach Burnout Inventory (MBI) os resultados confirmam parcialmente as evidências anteriormente apresentadas. Com efeito, o Burnout elevado é identificado em 71,3% dos elementos do Corpo da Guarda Prisional, em contraste com a ausência de Burnout observada em 28,7% da amostra.

Comparativamente ao ano de 2023 onde a escala de Burnout estava nos 3,85 atualmente o patamar atinge os 4,10. O exercício da função de Guarda Prisional configura-se como uma atividade profissional particularmente exigente, uma vez que implica o contacto permanente com indivíduos privados de liberdade.

A Síndrome de Burnout surge, assim, como uma das principais consequências da exposição prolongada ao stresse ocupacional, verificando-se uma elevada prevalência desta problemática entre os Guardas Prisionais. A correlação estatística realizada entre as dimensões em estudo (Exaustão Emocional, Isolamento, Ansiedade, Ideações Suicidas) revelou associações estatisticamente significativas à escala Copenhagen Burnout Inventory (CBI). Observou-se que as diferentes dimensões se relacionam entre si, sendo que a Exaustão Emocional apresenta uma associação negativa com as restantes quatro dimensões. De forma semelhante, o Isolamento e a Ansiedade mostraram correlações negativas, indicando níveis elevados e prejudiciais em relação à Realização Pessoal e à Despersonalização. Importa destacar que a presença simultânea de stress elevado nessas dimensões pode constituir um fator de risco para pensamentos auto-lesivos.

São consideradas características especificas e de fator extremamente negativo a exposição constante ao risco (medo de agressão ou incidentes violentos), os turnos longos e sobrecarga originando fadiga física e mental, clima organizacional rígido e hierarquizado sem apoio a nível emocional, isolamento social a dificuldade de manter vida social equilibrada devido ao trabalho e o impacto na saúde mental, originando ansiedade, depressão, irritabilidade.

Assim, as particularidades da função de Agente de Autoridade em contexto prisional, aliadas à complexidade da estrutura organizacional do Corpo da Guarda Prisional — caracterizada por hierarquia rígida e certo conservadorismo — podem dificultar a compreensão dos fenómenos de vulnerabilidade ao stress e Burnout. Estes fatores podem, por sua vez, contribuir para a ocorrência de pensamentos auto-lesivos, impactando negativamente a vida profissional dos agentes, manifestando-se, por exemplo, em absentismo laboral e, em casos extremos, em suicídio.

É fundamental ter em conta que todas as dimensões analisadas devem ser consideradas no contexto complexo do trabalho de um profissional do Corpo da Guarda Prisional, cuja atividade exige um controlo adequado das emoções, da agressividade e da ansiedade, bem como a capacidade de estabelecer relações interpessoais equilibradas. Torna-se, portanto, relevante continuar a refletir sobre as necessidades e os aspetos que podem ser ajustados na Instituição.

Nesse contexto, o stresse profissional e o Burnout constituem realidades incontornáveis na profissão de Guarda Prisional. A natureza das funções desempenhadas por estes profissionais pode ser considerada de elevado risco e desgaste rápido, uma vez que, no seu quotidiano, são frequentemente confrontados com situações extremas e de limite que podem comprometer as suas capacidades físicas, psicológicas, cognitivas e emocionais.

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