Vinhas atingidas em Mesão Frio podem afetar rendimento dos agricultores

Em Mesão Frio, a chuva intensa está a provocar "prejuízos significativos" nas vinhas inseridas no Douro, que poderão afetar o rendimento dos viticultores, mas há também estradas afetadas por derrocadas um pouco por todo o concelho.

© D.R.

A meio da manhã, a Proteção Civil municipal contabilizava 20 ocorrências, entre as quais um corte temporário de trânsito, devido a uma derrocada, na Estrada Nacional 108, zona de Oliveira, com ligação à cidade do Peso da Régua.

Adalberto Sampaio percorre, por estes dias, regularmente a freguesia de Cidadelhe para ver se há novos problemas causados pela chuva intensa.

“É uma enormidade, nunca se pensou termos uma intempérie desta envergadura”, afirmou à agência Lusa este presidente da junta de freguesia do concelho de Mesão Frio, no sul do distrito de Vila Real.

Adalberto Sampaio disse que, nesta freguesia, as principais consequências do mau tempo sentem-se a nível das estradas, com alguns cortes de vias devido às derrocadas, e ainda nas propriedades agrícolas.

“Os agricultores têm que ser muito apoiados porque são grandes os prejuízos neste momento, bem basta a dificuldade de escoamento de vinho e as dificuldades porque passam diariamente. A natureza pregou-lhes mais esta partida”, afirmou o autarca, que se mostrou muito preocupado.

Numa pequena aldeia mais em baixo, em Valcôvo, a meio desta manhã corria muita água pelas encostas e pela estrada, onde uma idosa tentava, com a ajuda de um sacho, encaminhar a água para fora da via. Este é um cenário que se repete um pouco por todo o município que se encontra em Situação de Alerta Municipal até domingo.

Neste concelho da Região Demarcada do Douro (RDD), a atividade económica assenta na vinha e no vinho e, segundo realçou o presidente da Adega Cooperativa de Mesão Frio, João Pedro Pinto, o mau tempo está a “provocar problemas sérios” que “afetam o potencial produtivo dos lavradores, dos pequenos agricultores”.

“Porque caíram muros, destroem-se videiras, caem taludes e, portanto, o potencial produtivo fica bastante afetado”, concretizou.

O responsável sublinhou que “há já muita área de vinha afetada” pela chuva intensa e a consequente saturação dos solos, mas alertou que hoje mesmo o território está em aviso laranja por causa da precipitação intensa e, por isso, o levantamento dos prejuízos só pode ser feito quando melhorarem as condições meteorológicas.

“Se caem paredes, destrói o que está por cima e destrói o que está por baixo. Na pequena parcela que nós temos, no minifúndio acentuado que nós temos, isso vai-se repercutir no rendimento”, reforçou.

João Pedro Pinto acrescentou ainda que, para manter a paisagem Património Agrícola Mundial, classificada pela UNESCO em 2001, é preciso repor os tradicionais muros de pedra posta e isso “custa muito dinheiro”.

“A nossa economia está baseada na produção de vinho, se o vinho ou a vinha são afetados toda a economia é afetada”, afirmou, repetindo que “repor todo o potencial produtivo custa muitos milhares de euros”.

Neste concelho há cerca de 900 viticultores, dos quais 90% com menos de um hectare, e a área de vinha ronda os mil hectares.

João Pedro Pinto lembrou as dificuldades que há no Douro, em consequência de anos de quebras de vendas de vinho, de dificuldades de escoamento da uva e, na última vindima, de uma quebra de produção e, por isso, lamentou: “vai ser difícil recuperar todas essas perdas”.

À quebra dos rendimentos dos produtores junta-se também a falta de mão de obra para a recuperação dos muros.

O responsável pela adega advertiu que será necessário um programa específico de apoio aos viticultores durienses porque, de outra forma, será “incomportável”.

Para além dos estragos nas vinhas, há ainda habitações, estradas e caminho obstruídos, linhas de água danificadas, garagens inundadas e a zona ribeirinha da Rede está submersa devido à cheia no rio Douro.

Cláudia Ferreira abriu há cinco meses uma loja de vinhos e produtos portugueses, numa estrutura municipal já existente na praia fluvial da Rede, a qual está inundada desde o dia 29 de janeiro.

“Já há duas semanas que não conseguimos entrar lá”, afirmou.

Cláudia Ferreira contou que ainda retirou equipamentos e bens do espaço, mas antecipa “grandes prejuízos”, até porque a instalação elétrica foi atingida e não sabe quando poderá reabrir.

O vice-presidente da Câmara de Mesão Frio, Fernando Correia, disse que “todos os recursos humanos do município estão focados” na resposta às intempéries.

“Não tem sido fácil, temos o concelho completamente devastado e não fomos incluídos no estado de calamidade decretado pelo Governo, o que nos deixou entristecidos. Estamos a fazer o registo todo de todas as situações do concelho”, salientou.

Adiantou ainda que uma técnica do município está a ajudar os agricultores a submeterem o formulário à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N) para levantamento dos prejuízos.

Fernando Correia pediu ao Governo para que olhe também para estes pequenos municípios do interior do país.

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