No final do ano passado, saiu uma notícia na imprensa canadiana que confirmava uma desconfiança antiga. No ano anterior ao referendo sobre a soberania do Québec, em 1995, o primeiro-ministro Jean Chrétien deu ordens ao seu ministro da Imigração para acelerar o processamento dos pedidos de cidadania, a fim de permitir que o maior número possível de recém-chegados pudesse votar.
O «Não» acabou por ganhar por uma diferença de apenas 54 mil votos, o que correspondeu a uma vantagem mínima percentual. A vitória do «Sim» por 50,58%, perante estas revelações escandalosas, ficou naturalmente debaixo de suspeita.
Numa coluna do Journal de Montréal, Mathieu Bock-Côté reagiu sem rodeios, dizendo que se tratava de uma «fraude legalizada» que aumentava rapidamente o número de eleitores chamados a votar «Não». Para o sociólogo, Ottawa utilizara a imigração em massa como arma política contra o Québec, afirmando: «O referendo de 1995 foi roubado.»
Classificando a operação como uma técnica de engenharia social para alterar a população do Quebéc, Bock-Côté concluía que a ideia era «diluir a maioria histórica francófona a tal ponto que a independência se torne definitivamente inviável». Tratava-se, como intitulou a sua coluna, de «O golpe de Estado de Ottawa».
No final de Janeiro deste ano, no seu habitual comentário televisivo no canal noticioso francês CNews, Bock-Côté regressou ao tema. Desta vez, perante um número recorde de imigrantes em França, o ensaísta afirmou que perante esta política de imigração em massa o país assiste há 40 anos a um «golpe de Estado demográfico». Ou seja, segundo ele, «assistimos, pouco a pouco, à alteração da população».
Recusando conspirações, afirmou que esta alteração não foi teorizada ou planeada desde o início, mas que perante a constatação do fenómeno da imigração maciça, «as elites no poder decidiram pôr o pé no acelerador quando poderiam ter posto no travão».
Nesta experiência ideológica, para o mundialismo, «os países mudaram de definição, um país já não era um povo, uma cultura, uma língua, uma memória, costumes, tradições. Um país é uma série de princípios, o Estado de Direito, a democracia, etc. Válido em qualquer lugar do mundo. A partir daí, qualquer pessoa podia instalar-se em qualquer lugar. Isso não alterava a identidade de um país, uma vez que esse país já não tinha identidade».
Sabemos que a mesma «receita» foi seguida por António Costa, enquanto primeiro-ministro de Portugal e que em Espanha, recentemente, Pedro Sánchez abriu as portas a uma legalização extraordinária de mais de meio milhão de imigrantes, o que provocou um efeito de chamada imediato e que pode levar ao aumento exponencial desses números.
Ainda em Espanha, e para quem pensa que a técnica do golpe de Estado demográfico é uma conspiração da extrema-direita, Irene Montero teve uma reacção reveladora ao anúncio desta operação de legalização em massa. A eurodeputada do Podemos, que foi ministra da Igualdade no anterior governo de Sánchez, afirmou publicamente e em gáudio: «Quero pedir aos imigrantes e pessoas racializadas que não nos deixem sozinhas com tanto fascista. E claro que queremos que votem.
Conseguimos os papéis. Regularização já. E agora vamos obter a nacionalidade ou mudar a lei para que possam votar». Montero recorreu ainda a uma tese que a extrema-esquerda habitualmente denuncia como falsa: «Oxalá, Teoria da Substituição. Oxalá possamos varrer os fascistas e racistas deste país com migrantes, pessoas trabalhadoras. Claro que quero substituição». Foi preciso o Podemos desaparecer praticamente em termos eleitorais para que um responsável dissesse claramente quais os objectivos de sempre do partido – os espanhóis «votam mal»? Substituem-se os espanhóis.
Curzio Malaparte concluía que o objectivo do seu livro Técnica do Golpe de Estado, publicado em 1931, era «mostrar que o problema da conquista e da defesa do Estado não é um problema político, mas sim um problema técnico; que a arte de defender o Estado é regida pelos mesmos princípios que regem a arte de conquistá-lo». É uma importante lição a recordar.