26 Setembro, 2023

“A generosidade e o risco assumido pelos bombeiros têm de ter uma resposta”

© António Nunes

António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, nasceu em Lisboa a 10 de agosto de 1954. Cresceu em Alcântara, tem dois filhos e quatro cães da raça schnauzer.

 

2017 foi o annus horribilis no que diz respeito aos incêndios florestais em Portugal, tendo-se registado mais de 100 mortos e cerca de 500 mil hectares de área ardida. Seis anos depois, aprendemos alguma coisa no que diz respeito à prevenção de incêndios?

O ano de 2017 podia ter marcado uma mudança radical na prevenção, no tratamento da floresta, no reequipamento dos bombeiros. Tudo isso teria contribuído para uma mudança gradual que, se realizada com a profundidade que se exige, ao fim de uma década já teria resultados.

Por outro lado, temos um Sistema da Proteção Civil que deve funcionar. Se assim tivesse acontecido muito se teria evitado na coordenação, na gestão e na antecipação.

A Aldeia Segura foi porventura a única iniciativa estruturada que pode ter resultados, mas cujo alcance e eficácia depende também das outras mudanças que aqui referi.

Estamos em condições de garantir aos portugueses que a tragédia de 2017 não voltará a ter lugar no nosso país?

Temos que ser tão cautelosos quanto sinceros e honestos. Estamos a falar de incêndios, mas antes de tudo de pessoas, que se perderam, cuja memória honramos tanto quanto soubermos fazer tudo para evitar que as causas e as circunstâncias que levaram à sua morte se repitam. O que, desde já, podemos garantir é que com a mudança do Sistema que defendemos há muito que poderá ser evitado. Há fenómenos naturais que nós dificilmente prevemos, mas já temos informação suficiente para, sendo bem aplicada por quem sabe, possamos agir de outro modo.

No que diz respeito aos meios de combate aos incêndios, como avalia o investimento do Governo nesta área? Tem sido suficiente?

A Liga dos Bombeiros Portugueses propôs ao Governo um investimento de 150 milhões de euros em viaturas de bombeiros. Trata-se, de certa forma, de retomar os planos de reequipamento anuais que já existiram e que foram abandonados, criando desde então a situação de degradação grave do parque automóvel dos bombeiros que chegou aos nossos dias com 1200 viaturas com 35 anos. Esta situação foi-se agravando, apesar dos poucos investimentos feitos inclusive, apenas com recurso a fundos comunitários e quase exclusivamente para viaturas florestais e esquecendo as urbanas. O que defendemos é uma reestruturação de todo o processo. E as viaturas e os equipamentos para intervir em acidentes rodoviários e outros? E os meios para salvamento de grande ângulo? E os equipamentos de proteção individual urbanos? E a reparação e renovação das autoescadas? E a adequação e reformulação dos quartéis às novas realidades, nomeadamente, à presença de mais mulheres nos corpos de bombeiros.

Na ótica da Liga dos Bombeiros Portugueses, a estrutura de comando no combate aos incêndios é a mais adequada?

Já o dissemos e repetimos que é importante termos bombeiros comandados por bombeiros. É esse o princípio de que não abdicamos. Os outros agentes da Proteção Civil são comandados pelos respetivos comandos. Qual a razão para que os bombeiros não o sejam? Por outro lado, recriámos o Comando Nacional Operacional de Bombeiros que já existiu e que não há razão para que não seja assim. É uma estrutura completa que cobre todo o país e que corresponde aos vários patamares que o comando exige.

Quais as principais carências dos bombeiros portugueses?

São muitas e todas elas inexplicáveis, seja nos incentivos ao voluntariado, seja na criação da carreira do bombeiro. É preciso que alguém que optou por seguir um percurso profissional nos bombeiros tenha forma de progredir não só nos postos, mas também no ressarcimento pelo seu trabalho.

Devemos acrescentar os seguros, que devem ser revistos e atualizados como já propusemos há um ano. É o mínimo que deve ser feito. A generosidade e o risco assumido pelos bombeiros têm de ter uma resposta, nomeadamente a garantia de que se algo lhe acontecer, o próprio e a sua família estarão protegidos. Ora a realidade é bem diferente.

Considera que o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais programado pelo Governo para este ano responde aos desafios que se avizinham neste Verão?

Houve melhoramentos que foi possível garantir, mas estamos a falar de um modelo esgotado que teve o seu tempo e escala, mas que há muito está esgotado. Temos de encarar o problema de forma integrada, nomeadamente pela reformulação do financiamento das Associações em moldes modernos.

Ao longo do ano o nível de envolvimento dos bombeiros não se circunscreve apenas aos fogos florestais, antes pelo contrário. Estes fogos correspondem apenas a 7% da atividade global dos bombeiros, logo, se o DECIR dá resposta a esses 7% faltará encontrar uma saída para os restantes 93%.

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