Ferro avisou Marcelo e Costa que saía da política com “a derrota” do fim da Geringonça

Ferro Rodrigues apresentou o seu livro que é sobretudo "um exercício de memória" e não uma autobiografia, um ajuste de contas ou uma "ameaça de regresso à vida política ativa".

©Facebook/eduardofero rodrigues

O antigo líder socialista e ex-presidente da Assembleia da República Ferro Rodrigues afirmou esta segunda-feira que comunicou ao chefe de Estado e ao primeiro-ministro que o fim da “Gerigonça” ditaria o fim da sua continuação na política ativa.
Ferro Rodrigues relatou este episódio ocorrido com Marcelo Rebelo de Sousa e com António Costa em outubro de 2021, após o chumbo da proposta do Governo do Orçamento para 2022, durante a apresentação do seu livro “Assim vejo a minha vida – Memórias”, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Na sua intervenção, o antigo secretário-geral do PS salientou a sua amizade com Marcelo Rebelo de Sousa. “É dos meus amigos mais recentes. Foi realmente uma amizade que se construiu em plena situação nova no plano político, social, económico, cultural, a partir de 2015, e que lamentavelmente foi quebrada com o fim da chamada ‘Geringonça’ em 2021″.
Perante uma sala cheia de convidados, Ferro Rodrigues contou que sentiu o fim da “Geringonça” – solução política de Governo minoritário do PS que teve suporte parlamentar do PCP, Bloco de Esquerda e PEV entre novembro de 2015 e outubro de 2021 – como uma “grande derrota” também do ponto de vista pessoal. “Disse ao Presidente da República e ao primeiro-ministro, António Costa, que não contassem comigo. Era uma grande derrota que também senti como minha”, referiu já na parte final da sua intervenção.

Dirigindo-se depois ao chefe de Estado, o ex-presidente da Assembleia da República lembrou o período de 2018 em que esteve doente e foi sujeito a intervenções cirúrgicas. “Foi incansável quando eu estive doente”, vincou Ferro Rodrigues, realçando em seguida a amizade entre ambos, “independentemente das divergências” políticas.
Com vários fundadores e antigos militantes do MES presentes na sala, o antigo secretário-geral do PS disse que o seu livro é sobretudo “um exercício de memória” e não uma autobiografia, um ajuste de contas ou uma “ameaça de regresso à vida política ativa”. Ferro Rodrigues observou que, como exercício de memória, procurou que não fosse caracterizado pelo autoelogio, mas principalmente pela crítica, “com alguma autocrítica”.

Numa das passagens do seu discurso, citou o antigo Presidente da República Jorge Sampaio, dizendo que “há mais vida para além da política” e que a sua família e amigos são centrais no seu livro de memórias. Eduardo Ferro Rodrigues, com 73 anos, foi eleito presidente da Assembleia da República há precisamente oito anos, em 23 de outubro de 2015, cargo para o qual foi reeleito em 2019 e que exerceu até março de 2022, quando terminou a anterior legislatura.

Em abril de 2022, o Presidente da República, foi condecorado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, com a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo. Economista, licenciado pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, a cuja Associação de Estudantes presidiu, Ferro Rodrigues foi fundador do Movimento de Esquerda Socialista (MES), a seguir ao 25 de Abril de 1974, e aderiu ao PS em 1988.

Foi ministro do Trabalho e Solidariedade e do Equipamento Social nos governos de António Guterres, entre 1995 e 2002, e secretário-geral do PS, entre 2002 e 2004. Marcaram presença nesta sessão o primeiro-ministro, António Costa, os ministros Fernando Medina, Mariana Vieira da Silva, Pedro Adão e Silva e José Luís Carneiro e figuras do PS como João Cravinho, José Vera Jardim, Alberto Martins, Jorge Lacão, Ana Gomes.

Entre os presentes estiveram também o antigo diretor-geral da Saúde Francisco George, o historiador e antigo dirigente do PSD José Pacheco Pereira, a campeã olímpica Rosa Mota, o presidente da associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, e António Filipe, do PCP.

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