Abril: reflexões sobre uma queda a redimir

Fim de Império 

Fim-de-tarde… / Fim-de-Vida… / Fim-de-dia… / Fim-d’ Império… ! 1

Dizia Pessoa que “há três espécies de Portugal, dentro do mesmo Portugal; ou, se se preferir, há três espécies de português”: o típico, o “português que não o é” – estrangeirado ou “parisiense” e o imperial.2

Fruto de artífices da Luanda portuguesa do século XX – alegre, luminosa, socialmente dinâmica, sempre me senti parte dos da última cepa.

Na linha de outros filhos de refugiados portugueses de África, cresci no espírito ultramarino da mágoa convertida em saudade de uma diáspora ao contrário, que repovoou uma metrópole, em vias de prosperidade, mas carente dessa gente calorosa e empreendedora dos nossos trópicos. 

Aprendi desde tenra idade a abominar Mário Soares, Almeida Santos ou Rosa Coutinho, pais da tragédia da «descolonização exemplar»; a admirar Marcelino da Mata e os comandos da Guiné, Alpoim Calvão, António Lobato, Kaúlza de Arriaga, Silvino Silvério Marques, Fernando Robles, Franco Nogueira ou Rodrigo Emílio. Homens que nas letras, na diplomacia ou nos inóspitos sertões e selvas africanas, travaram com tenacidade a luta das suas vidas, na defesa da nossa terceira via para o continente negro. Um projecto de excepcionalidade nacional, orgânico e sustentado na tradição de cinco séculos de contactos entre pretos e brancos, alternativa aos imperialismos yankee e soviético. Nomes, todos eles, representados na biblioteca lá de casa, em biografias e livros de História, personagens homéricos aos quais me afeiçoei, encantado por esse mundo perdido do misticismo imperial, “dos grandes espaços, da aventura africana, de uma terra onde valia a pena viver”3, magnetizante para um miúdo curioso, encurralado no Portugal pequenino da CEE, feliz e confortável, porém desprovido da aura mágica do heroísmo de antanho, de uma certa ideia da grandeza de pertencer a uma Pátria «onde o Sol nunca se põe». Passado à idade adulta, fui ao encontro dos destroços desse império sumido. Viagens em busca de mim mesmo, com paragens em Angola, evidentemente; no Brasil, onde conservo velhos laços familiares; na exótica Mombaça; nos fortes e fortins da costa atlântica de Marrocos.

“…Prisioneiros que somos de um lugar / Onde a alma se humilhe e deprave, / Quem nos quer verme, se nascemos ave? / Quem nos viu velas e as privou do ar? / Nós fizemos a terra ser redonda, / Por termos livre espaço e inquieta onda …” 4  

E esse «Portugal Grande», soberano, altivo e brioso, não resistiu à Revolução dos Cravos. Confessou Jaime Nogueira Pinto: “Senti que o Portugal do império ia acabar precisamente no dia 25 de Abril de 1974.” 5 E acabou. 

Estado Novo: um dique que transbordou

Uma rápida industrialização e a abertura aos mercados e capitais externos dos países da EFTA, levaram à explosão económica na fase final do Estado Novo. O progressos sustentados na alfabetização e diminuição da mortalidade infantil são inquestionáveis. Todavia, a tecnocracia conservadora, onde só Salazar pensava a política, cristalizou no campo das ideias, desde o fim do ímpeto modernista da «Política do Espírito» de António Ferro.

Dessa forma, as universidades de sessenta grassavam de maoístas, trotskistas, comunistas, liberais europeístas. Em todos eles o desapreço pela defesa do Ultramar, medrava em conjunto com uma sede crescente por Moscovo ou Washington. Em Coimbra e Lisboa, alguns estudantes à direita do «Antigo Regime» resistiam à regra com bravura física e firmeza moral.

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1 Rodrigo Emílio, Portugal, Tantos de Tal…in Antologia Poética, Areias do Tempo, Coimbra: 2009 (poema de 1998).

2 Fernando Pessoa, Sobre Portugal – Introdução ao Problema Nacional, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Ática, Lisboa: 1979.  

3 Jaime Nogueira Pinto, Portugal: os anos do fim. Sociedade de Publicações, Economia e Finanças, Lda., Lisboa: 1979. 

4 António Couto Viana, Memorial do Guerreiro in Estado Estacionário, Cultura Monárquica, Braga: 1988.

5 Jaime Nogueira Pinto. “No 25 de Abril senti que o Portugal do império ia acabar”. Entrevista concedida a José Cabrita Saraiva. Semanário Sol, 18 de Maio de 2017.

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