Imigrantes revoltados com AIMA. “Não há direito, 400€ é muito dinheiro”

A decisão da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) de pedir o pagamento antecipado dos custos do agendamento para concluir processos de regularização está a provocar a revolta nos imigrantes que contestam a medida unilateral.

© Facebook de AIMA

“Não há direito, 400 euros é muito dinheiro”, desabafa o turco Levin, um dos muitos imigrantes que se concentraram hoje junto à sede da instituição, em Lisboa, para tentar pedir esclarecimentos sobre a alteração das regras de pagamento dos custos do agendamento.

De acordo com mensagens eletrónicas enviadas na quarta-feira à noite para os imigrantes com manifestação de interesse que estão à espera de agendar um encontro para concluírem os seus processos ou no âmbito de reagrupamento familiar, a AIMA reclama o pagamento antecipado das custas.

Para os casos de cônjuges de imigrantes em situação regular, o custo é de 33 euros, para os cidadãos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) o valor é de 56,88 euros e para os restantes o total é 397,90 euros, a pagar em poucos dias.

“Recebemos 1763 emails sobre isto”, afirmou à Lusa a advogada Catarina Zuccaro, especialista nestes processos, que se mostra crítica da decisão, embora admita que os valores são os praticados, mas só no ato do agendamento e não antes.

“São pessoas há anos à espera e agora pedem que paguem antes de uma coisa que não tiveram. Isto preocupa. Todos estão super assustados, porque têm medo de perder tudo. Toda uma vida à espera do visto e quem vive de um salário mínimo tem muitas dificuldades em pagar 400 euros de uma vez”, afirmou a advogada, que acusa a AIMA de estar a “resolver os seus problemas e não dos imigrantes”.

Segundo a causídica, esta medida vai permitir à AIMA “peneirar” quem de facto permanece em Portugal, depois de ter entregado uma manifestação de interesse.

“Eu entendo. Há muita gente no sistema e isto vai permitir selecionar [quem está em Portugal ainda], mas é injusto. Há outros modos”, considerou a advogada.

A russa Valeria, que aguardava a vez na fila esta tarde na sede da AIMA, é um desses casos de desespero de quem não sabe como vai pagar as custas do processo.

“Não consegui um emprego, não consigo retirar o dinheiro da Rússia por causa das sanções. Vou ter de escolher entre comer e pagar”, desabafou.

O líder da comunidade do Bangladesh em Lisboa, Rana Taslim Uddin, acusa as autoridades portugueses de “mudarem as regras” sem terem em conta as “dificuldades de quem cá está e quer viver aqui”.

“De repente, uma pessoa recebe este pedido de um valor muito elevado, sem qualquer consulta com as associações de imigrantes”, salientou o dirigente bengali, que se mostra preocupado com o “sinal negativo” que é dado a quem “trabalha tanto também pela economia portuguesa”.

No email enviado aos imigrantes, a AIMA avisa que o pagamento deve ser feito no prazo de dez dias úteis, para assegurar o “agendamento do seu atendimento, na sequência da apresentação da manifestação de interesse”.

A “falta de pagamento da taxa no prazo previsto, determina a extinção do procedimento” de regularização e, “após a validação da conta e a realização do pagamento, irá receber uma proposta de agendamento nos 20 dias úteis seguintes”.

Após “o agendamento e antes da data agendada, receberá um link que lhe permitirá submeter novamente toda a informação e documentação atualizada, de modo a agilizar o seu processo e simplificar o atendimento”, refere a AIMA no mail.

“Caso já não se encontre interessado em prosseguir com a manifestação de interesse, informe-nos, clicando aqui, permitindo que outro utente tenha acesso mais rapidamente a uma vaga”, pode ler-se ainda no correio eletrónico.

Mohamed Sall veio do Mali há seis meses e esteve hoje à porta da AIMA para tentar saber mais informações.

“É preciso pagar, eu pago. Só quero ter certeza que não estou a ser enganado. Já devo muito a muita gente para ter chegado aqui”, disse, sem esclarecer como fez a viagem até Lisboa.

“Portugal é o país onde eu quero viver. Quero viver num sítio organizado e sem guerra”, explicou.

O líder da Associação de Apoio a Imigrantes e Refugiados em Portugal, Amadou Diallo, considera “inaceitável” o custo pedido de uma só vez, antes do agendamento.

“400 euros é muito dinheiro e as pessoas não têm nada. Vivem na rua e agora querem 400 euros”, questiona.

Levin deixou o sul da Turquia, junto à Síria, para tentar “viver na Europa”. Trabalha num restaurante e sonha em trazer a mulher e os filhos. “Gosto de Portugal, não vou desistir. Mas custa pagar assim de uma vez”, disse.

Se o objetivo das autoridades portuguesas é afastar os imigrantes do sonho da residência legal em Portugal, Rana Taslim Uddin avisa que isso não vai acontecer.

“As pessoas vão pagar. É injusto, mas vão pagar, porque quem quer ficar aqui a trabalhar, quem gosta de Portugal, não quer sair daqui”, resumiu.

Últimas do País

Todas as dez freguesias de Oleiros, no distrito de Castelo Branco, estão sem fornecidas de energia elétrica, com exceção de algumas zonas na sede de concelho, informou o presidente da Câmara Municipal.
Cerca de 198 mil clientes das E-Redes continuaram hoje às 13h00 sem luz em Portugal continental, a maior parte na zona de Leiria, na sequência da depressão Kristin na madrugada de quarta-feira.
Mais de 400 pessoas deram entrada nas urgências do hospital de Leiria com traumas devido a situações relacionadas com acidentes em trabalhos de limpeza e reconstrução, anunciou hoje a Unidade Local de Saúde (ULS) da Região de Leiria.
Carregados de pás, vassouras e sacos do lixo, centenas de voluntários juntaram-se hoje em Leiria, junto ao estádio municipal, para limpar e reerguer este concelho da região Centro, bastante afetado pela depressão Kristin, contando com pessoas de todo o país.
Um homem e uma mulher detidos na sexta-feira na posse de 22,7 quilos de haxixe, estão em prisão preventiva, indicou hoje a Guarda Nacional Republicana (GNR).
O furto de cabos e de gasóleo de geradores tem afetado a reposição do abastecimento de água no concelho de Porto de Mós, no distrito de Leiria, disse hoje o vereador Eduardo Amaral, que manifestou revolta.
Cerca de 211 mil clientes da E-Redes continuavam hoje às 06:00 sem luz em Portugal continental, a maior parte na zona de Leiria, na sequência da depressão Kristin na madrugada de quarta-feira.
O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) prevê um período prolongado de chuva na próxima semana em todo o território continental, mas sobretudo no norte e centro, regiões atingidas pelo mau tempo nos últimos dias.
O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) reconheceu hoje que tem os próximos dois dias para preparar as albufeiras para a próxima semana, que será "muito complicada" face à previsão de chuva em todo o território continental.
Um serviço de urgência de Ginecologia e Obstetrícia vai estar encerrado no sábado, e três vão estar encerrados no domingo, sobretudo nas regiões de Lisboa e Setúbal, segundo as escalas publicadas no Portal do SNS.