Produtores de castanha apontam para mais um ano fraco em Valpaços

Produtores de castanha abordados hoje pela Lusa apontam para um ano de quebra de produção na zona da serra da Padrela, em Valpaços, e de dificuldades crescentes para pagar a mão de obra e os tratamentos nos soutos.

© D.R.

“A colheita está muito fraca, penso que a minha andará na ordem dos 30% e, como eu, a maior parte dos agricultores deve ter esse problema”, afirmou Hernâni Sousa, de 63 anos, que apanhava castanhas numa das entradas da aldeia de São João da Corveira, perto de Carrazedo de Montenegro, Valpaços, no distrito de Vila Real.

O produtor aponta como causas as condições meteorológicas desfavoráveis ao desenvolvimento da castanha. “É um fruto que está cada vez mais sensível, mas o pior são os nevoeiros do fim do verão”, afirmou, referindo que a floração foi fraca e o verão quente e seco.

Para si, a tempestade Kirk, que trouxe ventos fortes à região, “foi do mal, o menos”, embora tenha derrubado ouriços com o fruto verde e partido ramos e árvores.

“A influência do tempo é cada vez mais importante naquilo que se vai colher a seguir. Os nossos antepassados diziam que o castanheiro só precisava de machado e arado, e agora exigem uma quantidade enorme de tratamentos, que ficam muito caros”, frisou este produtor que possui cerca de 900 castanheiros.

A sua produção média ronda as “16 toneladas a 17 toneladas”, no entanto, no ano passado a colheita não ultrapassou as 10 toneladas e este ano perspetiva “três toneladas”, embora realce que a qualidade “é muito boa” e que é um fruto que se “vende bem”.

Faz a apanha com três mulheres e disse que chegam para esta colheita.

Carlos Paiva tem 55 anos, reside no Porto e tira férias para vir fazer a apanha da castanha que, depois, vende naquela cidade, perspetivando colher apenas cerca de 40% da produção.

O trabalho é feito por si e contará com a ajuda dos filhos no fim de semana. A Lusa encontrou-o em São João da Corveira minutos depois de chegar do Porto, mas já com as luvas colocadas e um balde na mão.

Possui cerca de uma centena de castanheiros, nos quais já colheu 1,2 toneladas. “No ano passado apanhei 700 quilos, no ano anterior já tinha apanhado só 800”, contabilizou.

Carlos Paiva considerou que o rendimento do fruto tem decrescido nos últimos anos porque “tem muitas doenças associadas”, apontando à tinta, ao cancro, à vespa das galhas do castanheiro e à podridão da castanha. “Não traz alento agora”, lamentou.

O desânimo parece ser comum aos produtores deste território.

Em Sobrado, Liberal Gonçalves, de 67 anos, espera pelos três trabalhadores que traz na apanha e disse que “houve anos em que eram 10 a 12 pessoas”.

O produtor disse que as jeiras são caras e que o rendimento que tira dos soutos é cada vez menor.

“Este ano é mau. No princípio foi muito calor e não se criaram as castanhas e depois ainda veio aquele vento que deitou metades ao chão. O ano passado foi mau, mas este ano ainda vai ser pior”, desabafou.

Já colheu 20 toneladas e, este ano, não chega às três toneladas, mas de “boa qualidade”.

Este ex-emigrante reformado possui “largas centenas de castanheiros”, mas porque muitos secam repõe uma “média de 200 árvores” por ano.

Agostinho Luís, 61 anos, faz a apanha da castanha na aldeia da Padrela e disse que o ano “está muito fraquinho”, prevendo uma quebra de produção na ordem dos 85%.

“Isto para mim foi do tempo. Já há quatro, cinco anos que é assim”, referiu o produtor que tem na castanha a sua principal fonte de rendimento, mas que lamenta ter que ir “ao velho”, às reservas de dinheiro, para fazer face às despesas.

Num dia de trabalho apanhou quatro sacas de castanha. “Tenho sempre pessoal, mas este ano não merece a pena, ando eu e a mulher sozinhos”, contou.

Em 2023 colheu 300 sacas e, em 2024, prevê que não deve ter 100.

A podridão que afetou o fruto no ano passado fez o preço descer, mas este ano Agostinho Luís já vendeu o quilo a três euros e salientou ter a venda assegurada.

“A castanha é boa, mas há pouca”, afirmou também o septuagenário Manuel Alves, em Balugas, em Vila Pouca de Aguiar, que realçou que, além do mal”, a produção “ainda está melhor do que em 2023”.

Por causa da saúde, este ano decidiu dar metade da produção a uma outra pessoa que o vai ajudar na apanha.

Vive entre a França e Balugas e, apesar de ver cada vez mais castanheiros a secar, recusa-se a baixar os braços e continua a fazer novas plantações.

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