A informação foi divulgada esta terça-feira pelo Sindicato dos Médicos da Zona Sul (SMZS), da FNAM, que aponta diretamente responsabilidades à administração da Unidade Local de Saúde (ULS) Amadora-Sintra, lembrando que a estrutura diretiva se encontra demissionária desde novembro, sem substituição formal desde a saída do presidente na sequência do caso da morte de uma grávida.
No comunicado a que o Jornal de Notícias (JN) teve acesso, o SMZS sustenta que o colapso vivido na noite de sexta para sábado “não foi um acidente nem uma inevitabilidade”, mas o culminar de uma degradação progressiva do Serviço Nacional de Saúde, que atribui à falta de resposta política e à inação governativa. Para o sindicato, esta ausência de soluções “abre caminho à transferência de cuidados para o setor privado”.
A gravidade da situação levou, segundo o SMZS, à decisão da chefe e da subchefe da Urgência Geral de abandonarem funções. Nessa noite, a equipa médica disponível era, nas palavras do sindicato, “manifestamente insuficiente” face à afluência e à gravidade clínica dos casos. Até à meia-noite, a escala incluía um chefe de equipa, quatro médicos no serviço de observação e dois na área ambulatória. A partir das 0h e até às 8h, ficou apenas um médico responsável por todos os doentes da área ambulatória.
No início da noite, encontravam-se 179 doentes em circulação na urgência, mais de 60 dos quais internados no serviço de observação. Os tempos de espera atingiram níveis considerados inaceitáveis: doentes classificados como muito urgentes (pulseira laranja) esperaram mais de seis horas pela primeira observação médica, enquanto os urgentes (pulseira amarela) ultrapassaram as 20 horas de espera.
“O cenário era conhecido e previsível”, acusa o sindicato, sublinhando que se tratava de uma escala previamente definida, sem qualquer medida corretiva, apesar do pico sazonal da gripe. Para o SMZS, o episódio evidencia uma “grave incapacidade de gestão” e um desrespeito pelos profissionais e pelos utentes.
Já esta terça-feira, pelas 13h, indica o JN, os dados do portal do SNS continuavam a refletir a pressão sobre o serviço: os doentes muito urgentes aguardavam 11 horas e 47 minutos para observação médica, enquanto os urgentes esperavam 10 horas e 53 minutos.
O sindicato manifesta solidariedade com os profissionais do Amadora-Sintra e reforça que a responsabilidade não se esgota ao nível local, apontando falhas do Governo e da ministra da Saúde na criação de condições para fixar médicos no SNS. “Sem ouvir os médicos e sem responder às suas necessidades, não há milagres”, conclui.
No domingo, a ministra da Saúde reconheceu publicamente que a situação nas urgências é “muito crítica” e admitiu que não deverá haver melhorias significativas ao longo desta semana, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo.