A Montante da Tragédia: Coimbra e a Urgência de Mudar o Padrão

A calamidade que atingiu a Região de Coimbra é mais do que um fenómeno meteorológico extremo: é um alerta humano e estrutural que expõe fragilidades acumuladas. Casas inundadas, estradas cortadas e atividades económicas paralisadas revelam que, quando vidas estão em risco, não basta invocar a fatalidade. Impõe-se uma reflexão séria sobre responsabilidade coletiva e visão estratégica. Os problemas não se resolvem a jusante, depois da tragédia; resolvem-se a montante, com prevenção e planeamento.

Há anos que existem diagnósticos e alertas científicos sobre o agravamento dos fenómenos climáticos, a impermeabilização dos solos, a ocupação desordenada de margens ribeirinhas, a má gestão florestal e falhas no ordenamento do território. O conhecimento está disponível, mas a ação tem sido reativa. Mudar este padrão exige coragem política, compromisso institucional e cidadania ativa. Prevenir implica rever planos diretores, assegurar a manutenção das linhas de água, apostar na reflorestação adequada, criar zonas de retenção natural e investir em infraestruturas resilientes, mesmo quando isso envolve decisões difíceis.

Resolver a montante é também uma mudança cultural: promover literacia ambiental, educar para o risco e envolver comunidades na proteção do território. É recusar a normalização de construções em zonas vulneráveis e reconhecer que decisões individuais têm impacto coletivo.

Perante esta calamidade, destacou-se o melhor da região: a coordenação dos municípios, a prontidão da Proteção Civil, a entrega das forças de segurança, militares e bombeiros, e a solidariedade de voluntários e cidadãos. Esse espírito salva vidas, mas não substitui estratégia. Não se pode depender apenas da bravura na emergência.

Mais do que reconstruir, importa reformular políticas públicas, canalizar fundos para soluções estruturais e transformar conhecimento científico em ação consistente. A Região de Coimbra tem capacidade para liderar essa mudança. O desafio é assumir responsabilidades partilhadas e quebrar o ciclo de emergência e esquecimento. A verdadeira homenagem às vidas em risco é reduzir o perigo futuro. Prevenir é proteger — e proteger vidas deve ser prioridade absoluta.

Artigos do mesmo autor

A corrupção tem sido desde sempre uma preocupação constante na política portuguesa, afetando diversos partidos e figuras de destaque ao longo dos anos. Entre os casos mais notórios estão os que envolvem figuras proeminentes do Partido Socialista e do Partido Social Democrata, como José Sócrates, António Costa e Luís Montenegro.​ José Sócrates e a Operação […]

Situações de violência juvenil e sénior, sempre ocorreram quer na cidade de Coimbra, quer no nosso distrito, quer no espectro Nacional. Em diversas situações, já não ocorrem somente por questões de definição de território “marginal”, por quesitos de toxicodependência, por assuntos derivados do alcoolismo ou mesmo, por querelas familiares. Devem-se analisar com bastante pormenor, que […]

Nas últimas semanas, para não dizer últimos meses, o nível de criminalidade tem aumentado sem precedentes em plena Cidade de Coimbra. A recorrência de assaltos à luz do dia e pela noite dentro, a habitações, espaços comerciais e até a espaços de cariz religioso, apenas se pode configurar como anarquia de segurança nesta cidade. A […]

Há muito que a esta urbe, simbolicamente lhe foi dado o nome da Terra da Saudade, assente na sua etimologia de cidade dos estudantes, dos amores trágicos e das amizades eternas. Alicerçada numa via de comunicação fluvial que satisfazia, quer as populações a norte do Distrito, quer a sul do mesmo, Coimbra é uma cidade […]

Coimbra, desde sempre, se pautou pelo bem-estar das pessoas e especialmente, por ser uma cidade de referência no que aos cuidados de saúde diz respeito. O que em 1932 começou por ser um Hospital Sanatório, contemplando 100 camas para tratar pessoas com problemas de Tuberculose, passados 40 anos, com a sua readaptação e reajustamento originou […]