A Montante da Tragédia: Coimbra e a Urgência de Mudar o Padrão

A calamidade que atingiu a Região de Coimbra é mais do que um fenómeno meteorológico extremo: é um alerta humano e estrutural que expõe fragilidades acumuladas. Casas inundadas, estradas cortadas e atividades económicas paralisadas revelam que, quando vidas estão em risco, não basta invocar a fatalidade. Impõe-se uma reflexão séria sobre responsabilidade coletiva e visão estratégica. Os problemas não se resolvem a jusante, depois da tragédia; resolvem-se a montante, com prevenção e planeamento.

Há anos que existem diagnósticos e alertas científicos sobre o agravamento dos fenómenos climáticos, a impermeabilização dos solos, a ocupação desordenada de margens ribeirinhas, a má gestão florestal e falhas no ordenamento do território. O conhecimento está disponível, mas a ação tem sido reativa. Mudar este padrão exige coragem política, compromisso institucional e cidadania ativa. Prevenir implica rever planos diretores, assegurar a manutenção das linhas de água, apostar na reflorestação adequada, criar zonas de retenção natural e investir em infraestruturas resilientes, mesmo quando isso envolve decisões difíceis.

Resolver a montante é também uma mudança cultural: promover literacia ambiental, educar para o risco e envolver comunidades na proteção do território. É recusar a normalização de construções em zonas vulneráveis e reconhecer que decisões individuais têm impacto coletivo.

Perante esta calamidade, destacou-se o melhor da região: a coordenação dos municípios, a prontidão da Proteção Civil, a entrega das forças de segurança, militares e bombeiros, e a solidariedade de voluntários e cidadãos. Esse espírito salva vidas, mas não substitui estratégia. Não se pode depender apenas da bravura na emergência.

Mais do que reconstruir, importa reformular políticas públicas, canalizar fundos para soluções estruturais e transformar conhecimento científico em ação consistente. A Região de Coimbra tem capacidade para liderar essa mudança. O desafio é assumir responsabilidades partilhadas e quebrar o ciclo de emergência e esquecimento. A verdadeira homenagem às vidas em risco é reduzir o perigo futuro. Prevenir é proteger — e proteger vidas deve ser prioridade absoluta.

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