13 Junho, 2024

O estranho caso de Fernando Oneto

Para quem nunca ouviu falar de Fernando Oneto: Foi administrador do jornal “Diário de Notícias” e membro da comissão de Extinção da PIDE/DGS.

A propósito do “caso Delgado”, fez no pós 25 de Abril de 1974, em pleno Gonçalvismo, declarações à imprensa portuguesa a afirmar que o General se dirigia a Badajoz para se entregar deliberadamente à PIDE. Tais afirmações eram falsas, como ele próprio o confessou mais tarde.

Quando interpelado via telefónica  por Henrique Cerqueira, terá dito e passo a citar:

– Estamos a correr riscos tremendos… o PS tem cada vez mais força… Esta era a declaração possível.

Nessa mesma conversa, interrogado sobre se teria visto documentos comprometedores relativos ao assassinato de Humberto Delgado, uma vez que estivera na Comissão de Extinção da PIDE/DGS, este respondeu que não só os tinha visto, como efectivamente os possuía.

– Então você tem esses documentos e declara aquelas mentiras? Ou já destruiu os documentos?

– Estão em lugar seguro… os “papeis” estão em lugar seguro.

– Nesse caso, eles vão liquidá-lo. Você declara que Delgado se entregou voluntariamente (…) e mantém em seu poder os documentos que denunciam os verdadeiros culpados… Então você é um homem liquidado. Tenha cuidado!

Se alguém gravou esta conversa não sabemos. Mas alguém ficou a saber que os documentos incriminatórios estavam na posse de Fernando Oneto. Porque dois dias depois a casa de Fernando Oneto é abruptamente revistada. E poucos dias depois, a 14 de Maio de 1976, Fernando Oneto aparece morto. Muito convenientemente.

A 10 de Junho de 1976, o Semanário “Tempo” dizia:

“Mas algo de anormal se terá efectivamente passado. Várias são as hipóteses. Uma delas relaciona-se com a necessidade de silenciar Fernando Oneto que, dias mais tarde, se preparava para dar a conhecer ao povo português documentos importantes sobre a morte do General Humberto Delgado. Especula-se mesmo com um possível envenenamento através de uma micro injecção e segundo processos científicos já a serem utilizados em determinados países (nomeadamente por especialistas de organizações policiais e de espionagem, com a micro-injecção a não provocar vestígios).

Este semanário anunciou que iria enviar alguns jornalistas a Badajoz a fim de colherem elementos que ajudassem a descobrir a verdade sobre a morte do General em 1965.

As investigações destes enviados provocaram a vinda precipitada a Portugal do advogado espanhol Mariano Robles o mesmo advogado que Mário Soares havia substabelecido. Passados poucos dias Robles regressa de comboio a Madrid. No caminho sentiu-se mal. No dia seguinte morria.

No dia 15 de Maio de 1976, o jornal ”O Dia” diz o seguinte:

“Acertam-lhe em cheio… E mata-se um homem de muita maneira. A tiro, por veneno, através de cilada. Quando ontem, manhã cedo, me disseram que Fernando Oneto tinha morrido “do coração” ia eu quase morrendo de surpresa porque Fernando Oneto era a vida, o optimismo e a esperança, coisas que não se coadunam com a morte e muito menos com a súbita…Simplesmente…falara comigo dois dias antes.

Dizia ele que “a mim não me agarram”. Oneto enganou-se redondamente e à hora que me estava a falar já estava agarrado e bem agarrado….desde março do ano passado lhe preparavam um cerco. É como aquela velha história de Agatha Christie…se fosse viva e conhecesse o que se passou com Fenando Oneto, escreveria certamente “O caso da testemunha silenciada”.

Ainda no mesmo jornal:

“…Segundo os seus íntimos, não tivera anteriormente qualquer sinal de ser um cardíaco. 

De resto, os assassinos praticados por este tipo de envenenamento diagnosticado “doença cardíaca” já tinham sido denunciados na URSS, nos anos 1930. Depois de expurgado inúmeros grandes escritores da literatura russa, a polícia soviética coloca à cabeça da lista de 38 autores, o nome de Maximo Gorky. Ora este quando  discordou da acção do gabinete Político, pede que lhe seja concedido um visto para se deslocar ao estrangeiro, é internado compulsivamente para tratar de uma tuberculose, mas morre dias depois inexplicavelmente de uma embolia, quando nunca sofrera do coração. 

Outra morte relacionada com os documentos foi a de Dr. Ernesto Bisogno, médico italiano do General, que lhe salvou a vida em Roma, e que aparentemente sucumbiu do mesmo mal que Fernando Oneto e Dr. Robles. Pois Mário Soares ousou acusar este médico de implicação na morte do General. Em tribunal foi declarado inocente. Morreu pouco depois.

E o Almirante Pinheiro Azevedo em campanha eleitoral para a Presidência da Republica anunciou que iria denunciar a verdade sobre a morte do General num comício marcado para dia 14 de junho. No véspera, dia 23, sofreu…um ataque cardíaco. 

O que havia de tão grave no processo “Delgado” que teriam de ser silenciadas tantas testemunhas? Que nomes de figuras publicas “impolutas” estavam nesse documento? Saberemos algum dia?

Nota: O cadáver de Fernando Oneto nunca foi autopsiado, apesar da viúva dizer inúmeras vezes na imprensa que o marido tinha sido assassinado. Porquê?

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