Empresas portuguesas “estão a preparar-se” para regime de cibersegurança

O advogado da CMS Portugal Ricardo Pintão considera, em entrevista à Lusa, que as empresas portuguesas estão a preparar-se para o novo regime de cibersegurança e que a maior dificuldade será a sua "implementação prática".

© D.R.

O novo regime jurídico de cibersegurança, que transpõe a diretiva NIS2 [Network and Information Security], alarga o conjunto de entidades abrangidas, priorizando, por um lado, a generalização da prevenção dos riscos de cibersegurança, mas graduando a exigência regulatória em função da dimensão da entidade e da importância da sua atividade, bem como privilegiando a proporcionalidade das medidas aplicáveis.

“Acho que as empresas portuguesas estão a fazer um esforço considerável, acho que estão a preparar-se. Se estão preparadas? Acho que estão a fazer por isso, à semelhança de outras das empresas da União Europeia e diria do mundo”, afirma o advogado de tecnologia, media e comunicações (TMC) da CMS Portugal.

Questionado sobre se o novo regime, que está em consulta pública até final do mês, é claro, o jurista admite que “há sempre questões ligadas à ambiguidade legal e que podem ser melhoradas”.

No que respeita “às cadeias de abastecimento há, de facto, esta norma e temos aqui esta questão das decisões relativas à aplicação de restrições (…) de exclusão de equipamentos que fica no ar, percebo que isto possa causar ambiguidade”, admite.

Contudo, “vejo com bons olhos a questão da cadeia de abastecimento e que se fale nela, é fundamental que existam normas claras sobre a cadeia de abastecimento e sobre os prestadores de serviços de TI e ainda bem e aqui, de facto, é preciso clareza e normas reforçadas sobre as cadeias de abastecimento, muitas vezes há grandes dependências de prestadores”, refere o jurista.

Ricardo Pintão defende a existência de “regras claras, obrigações reforçadas, obrigações de escrutínio e de auditoria sobre estes prestadores de serviços, sobre a qualidade de produtos, sobre avaliações de riscos e decisões sobre aplicações de restrições”.

Neste âmbito, “diria que não há ambiguidade, não há é absoluta certeza sobre quais vão ser as restrições”, salienta Ricardo Pintão.

“Vivemos hoje num mundo com alguma complexidade, onde começam a proliferar algumas tendências protecionistas, onde o ciberespaço começa a evidenciar tendências de uma agressividade ostensiva”, pelo que “diria não ser má ideia ter este tipo de normas, mas é uma opinião”, afirma.

Aliás, o tema da cibersegurança veio para ficar e com os últimos avanços da computação quântica será ainda “mais desafiante”.

O jurista concorda que a consulta pública tenha sido alargada, até para que depois de “tudo esclarecido a lei seja aplicada”.

Quanto ao valor das coimas aplicadas no âmbito da NIS2, classifica de “relevantes”.

O novo regime diferencia o tratamento a dar às entidades essenciais e às importantes em função dos riscos e prevê coimas até 10 milhões de euros em caso de contraordenações muito graves para as primeiras.

“Na minha opinião, a sensibilização, a advertência devem ser a regra, mas de facto esta é uma matéria preocupante, tem um significativo impacto nos consumidores e utilizadores”, assume.

Instado a destacar uma medida que caracterize a NIS2 face à anterior, o jurista aponta a questão da responsabilidade dos órgãos de gestão, de direção e de administração.

Isto vem a colocar “uma pressão enorme sobre quem desempenha cargos de gestão, de direção e de administração das entidades obrigadas” e “causar mudanças de comportamento, nos países do Sul da Europa este tipo de normas causam mudanças por variadíssimas razões”, afirma.

Ricardo Pintão destaca ainda o artigo 31, que mostra “claramente uma vontade do legislador de colocar na gestão, direção ou administração um responsável de cibersegurança”.

Ou seja, “há uma clara tendência de promover pessoas capacitadas nestes órgãos”.

Já sobre a maior dificuldade do diploma – que “apresenta um esforço claramente relativamente à NIS [regime anterior] de condensar tudo no mesmo diploma”, algo que vê com “bons olhos” – aponta a “implementação efetiva”, remata.

Últimas de Economia

Os portugueses continuam a pagar cada vez mais para levar exatamente os mesmos produtos para casa. O cabaz alimentar voltou a aumentar e já custa quase mais 38% do que custava há pouco mais de quatro anos.
Os consumidores em Portugal contrataram em abril 881,1 milhões de euros em crédito ao consumo, numa subida homóloga acumulada de 13,6%, enquanto o número de novos contratos avançou para 146.018, divulgou hoje o Banco de Portugal (BdP).
As remunerações dos novos depósitos a prazo aumentaram em abril pelo terceiro mês consecutivo, para 1,44%, uma tendência em linha com a zona do euro, apesar de continuar abaixo do selecionado no mês homólogo, divulgou hoje o BdP.
A economia da zona euro teve um aumento homólogo de 0,3% até março, e o da União Europeia de 0,7%, divulgou o Eurostat, revendo em baixa a estimativa publicada em abril de, respetivamente, 0,8% e 1,0%.
As licenças para construção e reabilitação de edifícios habitacionais caíram 10,2% no primeiro trimestre, em termos homólogos, enquanto os novos fogos licenciados recuaram 4,7% e o consumo de cimento subiu 2,2%, segundo a AICCOPN.
O preço da gasolina deverá manter-se na próxima semana e o do gasóleo subir 4,5 cêntimos, segundo as previsões da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (Anarec) cedidas à Lusa.
A taxa Euribor subiu hoje a três, a seis e a 12 meses em relação a quarta-feira, para máximos desde abril de 2025 no prazo mais curto.
A Comissão Europeia abriu hoje um processo a Portugal e a outros 11 Estados-membros por não terem estabelecido regras nacionais para sancionar quem viole um regulamento sobre combustíveis sustentáveis na indústria da aviação.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) prevê que o saldo orçamental português será nulo este ano, passando para um défice de 0,1% em 2027, segundo as previsões divulgadas hoje.
A taxa de inflação anual da zona euro deverá ter aumentado em 3,2% em maio de 2026, face aos 3,0% registados em abril, puxada pelos preços da energia, segundo uma estimativa rápida hoje divulgada pelo Eurostat.