Arco do Triunfo acolheu cerimónia de homenagem à Força Expedicionária Portuguesa

O emblemático Arco do Triunfo, em Paris, símbolo das vitórias do exército francês, realizou hoje uma emotiva e inédita cerimónia em homenagem aos soldados do Corpo Expedicionário Português (CEP) da 1.ª Guerra Mundial, reunindo diferentes gerações.

© D.R.

“Para mim, não pode haver uma homenagem completa ao Corpo Expedicionário Português se não houver também uma cerimónia no Arco de Triunfo todos os anos. Foi o que nós organizámos, com a presença das associações, professores, mas também dos que têm feito um trabalho de memória, sejam eles portugueses ou franceses, e da Liga portuguesa dos Combatentes”, disse à Lusa o presidente da Activa – Grupo de amizade França Portugal das Cidades e Autarquias Locais, Hermano Sanches Ruivo.

Para Hermano Sanches Ruivo, que é também vereador da câmara de Paris, “todas as datas que têm a ver com as relações entre França e Portugal devem ser utilizadas para relembrar, para um trabalho de memória, de educação, mas também para uma questão de justiça”, por essa razão contou ainda com o apoio da FNACA – Federação Nacional dos Antigos Combatentes da Algéria, Marrocos e Tunísia do 14.º distrito de Paris e da Delegação de Paris da Liga Portuguesa dos Combatentes.

Num sábado nublado, mas com especial afluência de turistas numa das avenidas mais conhecidas da capital parisiense, os Campos Elísios, cerca de duas dezenas de pessoas e outros tantos jovens pertencentes à escola da Gendarmaria (o equivalente à Guarda Nacional Republicana em Portugal) reuniram-se por volta das 18:30.

A cerimónia foi assim “à volta do 09 de abril de 1918 e da Batalha de La Lys”, onde poucas semanas antes do fim da guerra “a 2.ª Divisão Portuguesa perdeu cerca de 300 oficiais e 7.000 homens, mortos, feridos ou prisioneiros”.

“O Corpo Expedicionário Português defendeu, batalhou, lutou – sob a autoridade das tropas inglesas – para a vitória dos aliados, pelos valores que eram os nossos e, portanto, temos que relembrar essa memória todos os anos”, defendeu Hermano Sanches Ruivo, referindo que “muitos franceses não sabiam que Portugal tinha participado na Primeira Guerra Mundial.

Com algumas dezenas de turistas a ver através das grades do perímetro de segurança ao Túmulo do Soldado Desconhecido, por baixo do Arco do Triunfo, a cerimónia do Reacender da Chama, que ocorre todos os dias à mesma hora desde o 11 de novembro de 1923, contou com o comité da chama, oficiais franceses, a União Departamental da Medalha Militar Haute Marne e os cadetes da Gendarmeria do Haute Marne.

Ao som de tambor e corneta da Guarda Republicana francesa, foram depositadas flores em cima do túmulo que tem inscrito “aqui jaz um soldado francês que morreu pelo seu país em 1914-1918”, antes da chama ser “reacesa” por uma espada pelos presidentes da FNACA e da Ativa, do vice-presidente da Delegação de Paris da Liga Portuguesa dos Combatentes e duas jovens.

No final da cerimónia, que demorou cerca de meia hora, foi entoado o hino francês “A Marselhesa” à capela e o hino ao soldado desconhecido pelos músicos.

“O meu avô fez parte do CEP, veio em 1917 para a região de Lille para participar na guerra de defesa da Liberdade de França. Ele não sabia bem para onde é que foi, mas sei que também participou, de uma maneira ou de outra, na Batalha de La Lys. Lys é um rio, e, em 1918, o batalhão dele estava na parte da frente e tiveram a ordem de passar para a retaguarda (…) e foi nessa troca de batalhões que houve uma ofensiva alemã muito intensa”, contou Emília Ribeiro, autarca na região de Paris.

O avô da autarca, e também candidata do Partido Socialista pelo círculo eleitoral da Europa nas eleições legislativas antecipadas de 18 de maio, fazia parte da 1.ª divisão da terceira brigada, do batalhão de regimento de infantaria n.º14, do distrito de Viseu e acabou por conseguir sobreviver por saber nadar e conseguir atravessar um rio, ao contrário de muitos dos seus companheiros que “ficaram pelo caminho” afogados ou atingidos.

“Isso é uma imagem que ele guardou para sempre e sempre lhe custou muito falar nisso. E também me falou, já é uma nota um bocadinho mais humorística, que depois andou fugido naqueles campos até voltar a encontrar os companheiros e os oficiais, porque foi mesmo um período muito difícil de atravessar”, acrescentou Emília Ribeiro.

Estar presente nesta cerimónia é “muito comovente” para a autarca natural de Lisboa que imigrou para França com os pais e que revelou ainda que o avô tinha o desejo de voltar à região de Lille, que lhe deixou muitas lembranças, entre elas a de “uma população de coragem que merecia que lutassem por ela”. Contudo, morreu antes de conseguir voltar ao país onde lutou.

Segundo Hermano Sanches Ruivo, “a próxima luta” será “ter uma representação do Corpo Expedicionário Português no (cemitério parisiense de) Père Lachaise, na parede gigante onde os outros países estão presentes”, já que Portugal tem uma forte ligação histórica com França e também uma ligação muito forte através da imigração.

Tendo em conta a tensão mundial atual no contexto de guerras, esta cerimónia é “uma maneira de não esquecer que os soldados alemães também participaram nessa guerra da mesma forma que os nossos, ou seja, respondendo a ordens e a realidades que muitas vezes os ultrapassavam”, afirmou o presidente da Ativa, defendendo a importância das “provas de amizade” entre França, Portugal, Alemanha e Inglaterra.

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