NÃO BASTA VOTAR, É PRECISO SABER VOTAR


Mais umas eleições presidenciais. As segundas sem vencedor à primeira volta na História da nossa democracia de meia-idade, e os resultados são de leitura fácil. Marques Mendes e Gouveia e Melo espalharam-se ao comprido; a extrema-esquerda não passa hoje de meia dúzia de cabelos cor-de-rosa da cidade, Cotrim venceu nas freguesias onde se come com pelo menos dez talheres diariamente, Seguro dominou nos concelhos mais abastados. Já Ventura venceu nos mais pobres, “onde Judas perdeu as botas”: na Madeira rural, em Trás-os-Montes, no Alentejo interior e no Algarve, mantendo a força nas periferias do Porto e de Lisboa.



Os “deploráveis”, “miseráveis”, os “sem eira nem beira”, confiaram a sua sorte à candidatura presidencial de André Ventura. Mas há um problema com este tipo de votos: é que, para o establishment, nem toda a gente sabe votar. Como disse Ana Gomes no rescaldo da vitória de Donald Trump em 2024, “o povo é quem mais ordena, mas os povos não têm sempre razão”.



Nem sempre foi assim. Houve tempos em que o povo português parecia fazer “boas” escolhas políticas. Acompanho a política desde os seis ou sete anos e, na altura, ouvia-se que as eleições eram a festa da democracia. “O que importa é votar”, dizia-se nos anos 90 e no início do milénio.



Os actores políticos, quais dramaturgos, lutavam encarniçadamente na arena parlamentar, mas, passado o acto eleitoral, tornavam-se compagnons de route, camaradas de primeira hora. Aceitavam-se os resultados com “serenidade democrática”, estabeleciam-se pontes em prol da “estabilidade” e invocava-se o superior interesse dos portugueses para entendimentos de todo o tipo. Os inimigos de morte de ontem eram os comparsas de copos e petiscos do dia seguinte. No fundo, tudo não passava de uma partida de xadrez ou de futebol – uma política agonal onde o combate verbal era apenas a ferramenta para consolidar o poder. Não havia amigos, nem inimigos reais. Podemos afirmar que, numa perspectiva schmittiana, não existia política.



Tudo mudou em 2019. Os votos passaram a ter diferentes níveis qualitativos: de um lado, os “esclarecidos”; do outro, os “brutos” enganados pela desinformação das redes sociais que não passava no crivo dos fact-checkers do sistema. Agora, as eleições são apresentadas em termos apocalípticos. Já não se confrontam ideias, mas sim a “democracia” contra a “não democracia”. A esquerda e a “direita perfumadinha” unem-se contra o “fascismo”, a “barbárie populista” e a “xenofobia”. Dizem que o fascismo está à porta 50 anos depois – num revisionismo até tonto que considera o autoritarismo nacional-conservador do Estado Novo um regime fascista, e, por isso, a esquerda implora à “direita direitinha”, a das “linhas vermelhas” e dos “Never Trump”, que vote no candidato do bem: o honestíssimo socialista António José Seguro, como sinalização de virtude.



É a falácia da autoridade. A “direita” dos barões e das negociatas – os Júdice, Lobo Xavier, Poiares Maduro ou Rui Moreira, converge no voto em Seguro. Carlos Guimarães Pinto, um esquerdista social que sabe fazer contas e o guru dos liberais, colocou o liberalismo económico na gaveta em prol da cruzada anti-populista. Até Cavaco Silva emergiu das catacumbas para indicar o voto “mais seguro”. Estranhos companheiros de cama, unidos em Muralha de Aço do Regime.



O problema é que, tal como nos EUA de Biden/Kamala e Trump, o povo humilde que trabalha e empreende não tem tempo para as páginas amarelas dos “notáveis”. Não conhece a maioria daqueles que Bruno de Carvalho, antigo presidente do Sporting Clube de Portugal, apelidou de “ilustres inúteis”. Porém, a máquina de deseducação em série – a comunicação social, está em movimento, e nela Ventura perde por goleada face ao candidato de Penamacor. Como dizia Gustave Le Bon: “O que se afirma chega, pela repetição, a gravar-se nos espíritos tão profundamente que todos acabam por aceitá-la como uma verdade demonstrada”.



Restam as redes sociais, enquanto as não limitam, e o contacto directo com as gentes comuns. Porque a batalha de 2026 não é entre “democracia” e “ditadura”, nem sequer entre “socialismo” e “não-socialismo”. É entre duas visões distintas de democracia: uma democracia mais directa, e uma democracia liberal, mediada, que criada (supostamente) para dar voz a todos, se converteu numa oligarquia de notáveis que prefere sacrificar a soberania e a liberdade à perda do controlo sobre os portugueses. Para continuar a reinar.

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