Tratores marcham até Aveiro em alerta para riscos de “machadada final” na agricultura

Produtores de leite e carne conduziram hoje os seus tratores numa marcha de protesto entre Ovar e Aveiro, alertando para o risco de encerrarem mais explorações agrícolas e de práticas comerciais injustas constituírem a “machadada final” no setor.

© D.R.

Embora com menos veículos no arranque da iniciativa comparativamente a protestos anteriores, a marcha promovida pela União de Agricultores e Baldios do Distrito de Aveiro (UABDA) teve como destino a sede aveirense da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), onde os participantes entregaram uma lista de reclamações incentivando o Governo a uma intervenção mais incisiva no setor.

Realçando que só em 2022 fecharam no distrito 200 explorações agrícolas, com base nos dados mais recentes da UABDA, o presidente dessa estrutura, Carlos Alves, explicou que em causa está a anunciada descida no preço do leite pago ao produtor, a subida dos custos de produção – entre os quais o aumento dos combustíveis devido à guerra no Médio Oriente – e a concorrência desleal introduzida no mercado nacional pela carne e outros produtos provenientes da América Latina – devido ao chamado acordo “Mercosul”, cujos efeitos práticos se deverão fazer sentir a partir do verão.

“Tendo em conta toda esta conjuntura, as perspetivas de futuro não são boas”, declara Carlos Alves, receando a incapacidade dos agricultores para manterem aos seus negócios viáveis. “Este ano vai ser decisivo (…) e o Mercosul será a machadada final”, defende.

A perspetiva do presidente da UABDA é que, se os agricultores portugueses “já têm dificuldade em escoar os seus produtos” e enfrentam suficiente concorrência por parte de outros mercados europeus, pior ficará a sua situação quando começarem a competir com bens provenientes da América Latina, onde a produção não está sujeita aos mesmos requisitos legais e sanitários da Europa, o que se reflete em preços finais mais baixos.

É por isso que Carlos Alves reclama “fiscalização muito mais intensa” ao que antecipa como “uma enxurrada de carne, leite e galinhas” cuja criação não passou pelo mesmo controlo de qualidade que existe na Europa.

O presidente da UABDA nota, aliás, que “a situação em Aveiro começa a ser dramática”, porque, ao nível do leite, a previsão é que em maio se comece a pagar menos aos produtores por cada litro – o que não os compensará pelos custos de produção e deixará ainda maior margem nas mãos dos distribuidores – e, ao nível da carne, a entrada em Portugal de produtos latinos tornará o negócio mais incomportável para o criador português – aumentando o seu risco de insolvência.

António Tavares é produtor de carne e disse hoje que a sua unidade agrícola, com 40 vacas leiteiras e também produção de carne, é uma das que está ameaçada. “Está a minha e também a de outros colegas meus. Podemos fechar portas porque, até aqui a receita ainda cobria os custos, mas, agora, já andamos a acumular dívida”, revela.

Carlos Alves argumenta que, se a agricultura é de facto estratégica, como o ministro da tutela defende, então ele deve intervir eficazmente no setor e zelar pela preservação das pequenas e médias explorações. “Que venha ao terreno apoiar os agricultores, que precisam de auxílio técnico, de ajuda na legalização e de apoio financeiro para poderem continuar a sua atividade e deixar o seu negócio aos filhos”, afirma.

Do documento que a UABDA entregou à CCDRC consta uma lista de oito reivindicações, começando pela “garantia de condições para escoamento de leite, carne, fruta e hortícolas a preços justos, através de uma lei que proíba a venda a valores abaixo do custo de produção”.

Os agricultores exigem também: fiscalização da atividade da grande distribuição e do agronegócio, com controlo fronteiriço das importações; regulação que imponha limites máximos no preço dos fatores produtivos para travar a especulação; reforço de meios do Ministério da Agricultura para resposta a problemas estruturais; e acesso dos pequenos e médios agricultores a apoios nacionais e comunitários com majorações que permitam pôr fim a uma “injustiça histórica”.

O mesmo documento reivindica ainda o aumento dos descontos para o gasóleo agrícola, a implementação definitiva do Estatuto da Agricultura Familiar, a disponibilização de apoio técnico e financeiro da tutela ao desenvolvimento de pequenas e médias explorações familiares, resposta célere aos prejuízos causados pelas recentes intempéries e pelos incêndios de 2024 e 2025, e linhas de crédito “altamente bonificado, de longo prazo e com carência inicial” para reestruturação de dívidas.

Últimas do País

Produtores de leite e carne conduziram hoje os seus tratores numa marcha de protesto entre Ovar e Aveiro, alertando para o risco de encerrarem mais explorações agrícolas e de práticas comerciais injustas constituírem a “machadada final” no setor.
A maior plataforma mundial de 'phishing', que afetou mais de 160 organizações em Portugal, foi desmantelada através de uma operação internacional coordenada pela Europol, anunciou hoje a Polícia Judiciária (PJ), que participou na operação.
O Tribunal Judicial de Évora decretou hoje a prisão preventiva do casal suspeito de abuso sexual de menores, pornografia de menores e aliciamento de menor, em Montemor-o-Novo, no distrito de Évora, revelou fonte policial.
O presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, disse hoje à agência Lusa que serão necessários 42 milhões de euros (ME) para reabilitar o património público danificado pelo mau tempo.
Um homem indiciado por tráfico de estupefacientes e posse ilegal de armas e munições foi detido numa operação conjunta da PSP e da Polícia Judiciária desencadeada hoje na Cova da Moura, concelho da Amadora, anunciou fonte oficial.
O Centro de Informação Antivenenos (CIAV) registou 842 casos de intoxicações intencionais entre jovens em 2025, mais 20% do que em 2024, a maioria com ansiolíticos sedativos, hipnóticos e antidepressivos.
O Tribunal da Feira condenou hoje a cinco anos e meio de prisão um homem de 35 anos por ter ateado dois incêndios florestais em Castelo de Paiva, no distrito de Aveiro.
A falta de dinheiro foi o principal motivo para a população portuguesa deixar de fazer exames e tratamentos dentários, revelou hoje o Instituto Nacional de Estatística (INE), ao divulgar os resultados de um inquérito realizado no ano passado.
Dezenas de técnicos de saúde exigiram hoje em frente ao Ministério da Saúde, em Lisboa, negociações dos contratos de trabalho e das carreiras, algumas das quais estão pendentes desde 2023.
Os hábitos alimentares inadequados estão associados a 7,9% das mortes em Portugal, em 2023, e a 5,3% dos anos de vida saudável perdidos, figurando entre os cinco fatores de risco que mais contribuíram para a carga de doença no país.