Portugal encontra-se num daqueles instantes raros em que o país parece suspenso entre duas respirações: uma que recorda o que fomos e outra que tenta adivinhar o que ainda podemos ser. Há décadas que repetimos este enigma, mas nunca foi tão evidente a necessidade de o decifrar. A distância entre ambição e execução continua a doer, como uma porta que range todos os dias mas ninguém se lembra de reparar.
Se quisermos um programa nacional, ele terá de começar por um gesto simples: reconhecer que o país precisa de crescer mais depressa do que envelhece. O relógio demográfico roda para trás e nenhuma política pública pode ignorar isso. Um plano sério para Portugal terá de convocar juventude, talento e famílias para o centro da equação. Isso significa habitação acessível, salários que não se evaporam e mobilidade que não transforme cada deslocação numa pequena odisseia.
A economia necessita de um salto de densidade. Temos excelentes ilhas de inovação, mas falta o arquipélago completo. Investimento em ciência, simplificação administrativa e uma estratégia firme de atração de empresas tecnológicas podem transformar a paisagem produtiva. Para isso, o Estado deve ser menos um labirinto e mais um elevador: algo que nos leve mais alto sem demoras desnecessárias.
Na educação, continuamos a pedir às escolas que curem todas as feridas sociais. É um pedido nobre, mas impossível. O que podemos fazer é dar-lhes autonomia real, investir nos professores e tratar a formação contínua como parte do contrato civilizacional. Um país que não renova a sua curiosidade acaba condenado a repetir velhos capítulos. É urgente também a ligação a uma realidade cada vez mais condizente com o que se faz no mundo e menos nos gabinetes e salas de aula.
Quanto à justiça, há processos que envelhecem mais do que árvores centenárias. Reformar o sistema não é um capricho; é a única forma de devolver confiança a quem sente que a lei é uma personagem lenta demais para o ritmo do mundo real. Porque não começar por limitar os recursos dando nova vida a este motor social?
No território, urge pensar em Portugal como uma tapeçaria inteira e não apenas como duas ou três manchas luminosas no mapa. A coesão não se decreta; constrói-se com investimento, transporte digno, serviços públicos presentes e um combate determinado ao abandono.
E há, finalmente, a questão do Estado social — a estrutura que nos segura quando o chão treme. Ele precisa de modernização, mas também de previsibilidade. Saúde com equipas reforçadas e carreiras claras; proteção social que não deixe ninguém para trás; políticas de envelhecimento ativo que reconheçam a longevidade como um triunfo, não um fardo. E acima de tudo, um Estado com menos subsídios e mais arregaçar de mangas.
Um programa para Portugal não é uma lista de promessas; é um pacto. Um pacto de lucidez, responsabilidade e ambição. Um pacto que olhe o futuro sem medo, porque quem anda sempre a adiar reformas acaba por ter de viver com reformas que já não o reconhecem.
O país tem talento. Falta-nos só acertar o compasso. Quando isso acontecer, o futuro deixará de ser uma porta que range e passará a ser uma janela aberta — com vento suficiente para empurrar Portugal para um novo capítulo. E esse capítulo tem um nome e um Líder: Chega e André Ventura!