Produção de mel com quebras que ultrapassam os 70% na região transmontana

A produção de mel caiu cerca de 70% no Parque Natural de Montesinho, podendo chegar aos 90% nalguns casos, e cerca de 60% na região da Terra Quente, nomeadamente Mirandela, adiantaram vários apicultores, hoje, à Lusa.

© D.R.

 

De acordo com a Federação Nacional de Apicultores de Portugal (FNAP), estima-se que, só na zona da Terra Quente, se tenham perdido dezenas de toneladas de mel, isto porque “as colmeias cresceram para começar a produzir e, quando estavam a iniciar a sua produção, quando havia floração, muda radicalmente a temperatura”.

“Estava um tempo bom, 20 dias depois estava chuvoso, ventoso, temperaturas baixíssimas, elas retraíram, parou a postura, as abelhas velhas morreram, não houve renovação, a quantidade de abelhas dentro da colmeia diminuiu, não fizeram recuperação, não houve produção”, explicou o presidente da FNAP, Manuel Gonçalves, também responsável pela Associação de Apicultores do Parque Natural de Montesinho.

Nesta área protegida, as colmeias foram fortemente afetadas. Maria João Pires foi uma das apicultoras afetadas no concelho de Bragança. Tem cerca de 900 colmeias, que produziram pouco mais de 20% de mel. “É muito complicado para nós, enquanto produtores, porque estávamos a contar com aquela produção para vender e, tendo uma quebra de 80%, é muito difícil escoar o produto”, disse.

Segundo a produtora, as constantes alterações meteorológicas foram um problema, mas também os incêndios. O Parque Natural de Montesinho foi afetado por um fogo em julho, destruindo assim plantas e, consequentemente, alimento para as abelhas. Por isso, a alternativa passa por alimentar as colmeias. “Ou fazemos isso, ou as abelhas morrem”, explicou a jovem, adiantando que isto traz “mais custos” e “não há apoios”. “Ou temos dinheiro do nosso lado para investir, ou não vamos conseguir suplementar e vamos acabar por perder as colmeias, o mel e acabamos por perder tudo”, vincou.

A apicultora reclama “apoios significativos por parte do Governo”, para que os produtores se consigam manter. Considera que a quantia atribuída nos subsídios “não chega” e, por isso, nem sequer recorre à ajuda, porque “não compensa”.

Outro dos apicultores afetados foi Francisco Peres. Tem cerca de 200 colmeias em Mirandela, mas com uma quebra de produção “muito grande”. “Uma quebra na ordem dos 50% ou mais. Aqui, com estas 40 colmeias, costumo colher mil quilos de mel, este ano não cheguei aos 300 quilos”, lamentou.

Também Francisco critica os apoios atribuídos, face à crise que o setor apícola atravessa. “Estas colmeias já foram quatro vezes este ano e a ajuda só é de dois tratamentos, portanto, não chega”, apontou.

Mirandela foi um dos concelhos fustigados pelos incêndios este Verão. O presidente da Cooperativa de Mel da Terra Quente e Frutos Secos, José Domingos, adiantou, à Lusa, que arderam mais de 10 mil colmeias nesta zona, sendo que alguns produtores chegaram a perder quase 300 colmeias, consumidas pelas chamas.

Tendo em conta este cenário, o responsável teme que pode haver apicultores que desistam da atividade. “No ano passado, a produção ficou abaixo da média, mas aceitou-se. Este ano não deu para manter as colmeias. Se estamos a trabalhar, se gastamos dinheiro – e qualquer coisa na apicultura é cara – a seguir não tem rendimento, as pessoas ponderam abandonar a atividade”, referiu.

E como diz o ditado “uma desgraça nunca vem só”, depois de uma Primavera com clima instável, de um Verão com incêndios, chega agora o Outono, com um forte ataque da vespa asiática ou velutina, que se alimenta das abelhas. “As abelhas por causa da velutina não saem das colmeias, se não as alimentarmos acabam por morrer à fome”, esclareceu o apicultor Francisco Peres, que num apiário, com cerca de 40 colmeias, tem “11 armadilhas”, onde consegui apanhar “centenas” de vespas asiáticas. “Isto é um problema muito sério”, afirmou.

Tão sério ao ponto de pôr em causa o setor agrícola e toda a existência humana, visto que as abelhas, através da polinização, contribuem para a produção de alimento. “A agricultura começa a ficar também em risco. A atividade apícola estimula tudo isto, faz com que haja produção. Se começarmos a definhar, a desistir [da apicultura], sobretudo os pomares de amendoeiras vão ter dificuldades nas suas produções”, garantiu José Domingos.

Devido aos incêndios, em toda a região Norte, segundo dados da Federação Nacional de Apicultores de Portugal, 14 mil colmeias ficaram afetadas, sendo que cerca de quatro mil foram mesmo destruídas.

Quanto aos apoios relativo ao potencial produtivo, o presidente da federação, Manuel Gonçalves, avançou que, para fazer face às quebras, os apicultores são pagos para fazerem “serviço de polinização”, nomeadamente em explorações de amendoal e nogueiral, tendo “uma receita que lhes compensa a quebra de produção que vão tendo”.

Os produtores de mel que ficaram com colmeias destruídas pelas chamas puderam também recorrer à ajuda do Governo, de 10 mil euros.

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