24 Abril, 2024

O revivalismo comunista

Poder-se-ia pensar que a referência a este tema não é actual por o comunismo estar desautorizado em toda a parte. Mas no nosso país, infelizmente, não é assim. Por razões, para mim evidentes, mas sobre as quais não me vou agora pronunciar, o tema continua actual entre nós pela mão do vetusto PC mas, e principalmente, de todo um conjunto de pequenos e médios intelectuais de esquerda sem qualquer ligação ao proletariado, este, por sua vez, cada vez mais raro. 

    Seria necessário que os indecisos compreendessem de uma vez por todas o que foi e é (em Portugal, caso único na Europa) o comunismo. 

    A faceta mais escondida do comunismo é a política, posto que da económica e da filosófica nem vale a penas falar porque são verdadeiramente insignificantes. O comunismo baseia-se na negação de qualquer autonomia individual ou social perante o Estado e numa concepção restritiva do cidadão que faz dele apenas o agente da produção, repartido por classes sociais. A ditadura é a forma de governo indispensável para modelar a sociedade, em conformidade com um modelo centralizado e autoritário, como, aliás, o próprio Marx aceitou, num momento de lucidez intelectual. Ditadura da indústria e do aparelho militar, ditadura na vida social e na privada, ditadura em toda a parte, como não passou despercebido à crítica de Proudhon ao comunismo. A ditadura carece obviamente de um partido apoiado na força militar e na polícia a preparar a «transição» para a sociedade «ideal», como fica claro no texto político mais consistente que Marx escreveu, a Crítica do Programa de Gotha. Este modelo político necessita, como não podia deixar de ser, da força coerciva do Estado, da negação da personalidade individual, do estrangulamento da sociedade civil e do boicote de qualquer iniciativa que se desvie dos planificados cânones partidários. A repressão é o meio necessário para a instituição dessa nova «cidade de Deus» na terra, como nem Santo Agostinho teria ousado defender. Consequentemente, o terror «revolucionário» é virtuoso e mesmo indispensável, como a inquisição romana o foi no combate às «heresias» luteranas e calvinistas que apenas pretendiam (re) estabelecer a relação pessoal entre o fiel cristão e Deus, sem intermediação da burocracia e do nepotismo romanos.       

    Esta é a realidade teórica e prática. Perante isto de nada valem os marxismos imaginários, com ou sem rosto humano, a pretender branquear a teoria e os seus desastrosos e criminosos resultados. Como é possível que num país europeu como o nosso, décadas depois da falência do modelo soviético e perante a realidade criminosa dos regimes que ainda se reivindicam do comunismo, o marxismo ainda continue a despertar entusiasmo é, para mim, algo de incompreensível. Sim, porque no nosso país há muito quem continua e entender que a chita vendida a metro em armazéns do estado e a preços tabelados é a solução e que quem assim não pensa está ao serviço do capital e dos grandes grupos económicos monopolistas.        

    Porque razão se repetem estas evidências em Portugal em 2023? Porque é necessário. A quantidade de pessoas que continuam tributárias do marxismo que lhe impingem em doses de pacotilha é inacreditável. A estratégia para a divulgação de semelhantes atuardas é agora diferente. Procuram-se os reformados indignados, os inadaptados à sociedade competitiva em que vivemos, os contribuintes esmagados, as mulheres maltratadas e os jovens fragilizados, sem curar de saber se os motivam interesses «de classe» ou se apenas compreensíveis sentimentos de revolta. E pesca-se em águas turvas; usam-se as alterações climáticas, a igualdade de género e a violência machista para angariar o voto como dantes se apelava à consciência proletária. O objectivo que presidia à política de «alianças» das frentes populares e que era a tomada do poder já não é para aqui chamado.  Vale tudo. A parada carnavalesca já saiu.

    Ora, é isto que merece atenção. O marxismo apresenta-se agora de maneira ecuménica e integradora, aberto a todos e pacifista, sob coloridas vestes transsexuais, transformistas e antirracistas com que vai decorando a sua mensagem. Vai daí o combate à violência doméstica, os direitos dos animais maltratados, as alterações climáticas, os direitos dos homossexuais e transformistas, etc… Não passa pela fraca cabeça destes neo-marxistas que os interesses em causa não corporizam os de um partido de vanguarda da classe operária e que a sua defesa cabe perfeitamente na ordem vigente; basta modificar favoravelmente certas leis e sancionar eficazmente os prevaricadore. Não percebem os neo-marxistas que a sociedade em que vivemos já há muito é pós-tradicional, insubmissa e universalizada e que esta realidade só favorece o capitalismo global. O capitalismo só lhe agradece porque sabe conviver muito bem com esta situação. E mais; ela acaba mais tarde ou mais cedo por o robustecer.  

    A estratégia marxista já não está ao ataque; só lhe resta sobreviver. Para tanto, imagina constantemente novos pretextos para nos vender a luta de classes e o conflito insanável entre os exploradores e os explorados. 

    A classe operária tal como Marx, e muito antes dele, a concebeu, já não existe. Nem tem sucedâneos. É este o drama dos actuais marxistas. Como não existe vamos agarrar nuns tantos fragilizados e pôr-lhes uma máscara de operários explorados. Em vez do proletário da cintura industrial temos agora a pobre mulher vítima de maus tratos e o cão abandonado.  E é com isso que se pretende revolucionar a sociedade. Não passa pela disfuncional cabeça daqueles infelizes que para acabar com essa infâmia que é a violência doméstica e garantir os direitos dos homossexuais e dos transformistas bem como o bem-estar animal não é preciso nacionalizar a banca e os seguros, nem torpedear a iniciativa privada, nem proibir o ensino e a medicina privados, nem alterar o significado da linguagem, nem falsificar a história do nosso país, nem contrariar o desenvolvimento das hormonas masculinas, nem proibir os rapazitos de se vestirem de azul. A imbecilidade ideológica não tem limites sobretudo quando alimentada pelo desespero.           

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