Peritos alertam para “assimetrias de poder” na Igreja e que abusos “não são coisa do passado”

O Grupo Vita, nomeado pela Igreja para receber queixas de abusos e apoiar as vítimas, alertou hoje que persistem "assimetrias de poder" e "perceções distorcidas" sobre o papel dos sacerdotes, que favorecem novos casos.

© Site Grupo Vita

“Persistem assimetrias de poder, perceções distorcidas sobre a figura sacerdotal e resistências culturais que dificultam a denúncia e a proteção efetiva de crianças, adultos vulneráveis e sobreviventes”, pode ler-se no relatório referente a 2025 do grupo.

Na apresentação do relatório de atividades, a coordenadora do grupo, Rute Agulhas, referiu que os “abusos não são coisa do passado” e há registos recentes, de 2023, já depois de o tema estar na agenda pública.

“A ausência de estruturas uniformizadas, a falta de mecanismos consistentes de prestação de contas e as fragilidades na articulação entre e com Comissões Diocesanas e Institutos Religiosos demonstram que o sistema de proteção ainda não atingiu a maturidade necessária para funcionar de forma autónoma e plenamente eficaz”, pode ler-se também no documento do grupo.

“Há uma ideia muito enraizada, em determinados contextos, que os sacerdotes são moralmente superiores e não os podemos contrariar”, afirmou a psicóloga, na apresentação, salientando que os abusos “não são apenas de cariz sexual”, mas também hierárquico ou laboral.

Isto “reforça a desigualdade de poder e dificulta a denúncia de comportamentos abusivos, a par de uma “descredibilização das vítimas e sobreviventes” e “ausência de estruturas uniformizadas” para as ouvir.

“Persistem constrangimentos na articulação com algumas Comissões Diocesanas, que continuam a atuar de forma pouco integrada e com níveis distintos de maturidade organizacional” e há uma tradicional “falta de prestação de contas”, com uma “opacidade institucional” que “contribui para a perceção de impunidade”

Além de outros problemas, a comissão salienta que persistem “equívocos sobre prevenção” de abusos nalguns contextos da Igreja, onde “ainda se confunde a prevenção da violência sexual com debates sobre sexualidade ou ideologia de género, o que gera receios infundados e funciona como um constrangimento significativo à adoção de programas de prevenção primária”.

A “lentidão nas respostas, a necessidade de clarificação conceptual e a urgência de reforçar uma abordagem centrada na prevenção – frequentemente comprometida por equívocos e narrativas que minimizam a atualidade dos abusos – evidenciam que o acompanhamento técnico especializado do Grupo VITA continua a ser indispensável”, consideram os autores, salientando que o objetivo é promover “práticas uniformes” e capacitação dos quadros.

“Num momento em que a Igreja procura reconstruir confiança e garantir ambientes verdadeiramente seguros, a continuidade do Grupo VITA não é apenas recomendável: é uma condição necessária para assegurar coerência, rigor e compromisso efetivo com a proteção e a prevenção”, pode ler-se.

Quanto ao futuro, após o encaminhamento das vítimas, o Grupo Vita defende medidas de “apoio às vítimas e sobreviventes” com ações concretas, “formação e capacitação” de quadros eclesiais e de “prevenção e políticas institucionais”, procurando promover uma “justiça restaurativa e reparação”, a par de estratégias para promover a investigação académica sobre o tema.

Em 2025, foi lançado o Sobre.viver, um projeto que “procurar dar voz às vítimas e sobreviventes de violência sexual no contexto da Igreja Católica em Portugal”, com encontros mensais que constituem um “espaço seguro e empático para a escuta, a reparação simbólica e a participação ativa na definição de políticas e estratégias de prevenção”.

Deste projeto nasceram dois documentos orientadores, já disponíveis, um denominado “A Igreja que Escuta”, com “diretrizes para encontros entre vítimas e sobreviventes e representantes da Igreja”, e o “Guia de Apoio e Escuta, dirigido a familiares e amigos das vítimas e sobreviventes”.

Em paralelo, estão em curso ações de formação e capacitação das dioceses para prevenir estes comportamentos, a que se soma o “Projeto Igreja + Segura”.

O projeto prevê que as instituições subscrevam uma “Carta de Princípios com compromissos básicos de prevenção, escuta, transparência e apoio”, sujeitando-se a “um sistema de auditoria independente”, que irá atribuir uma certificação.

Últimas do País

A temperatura em 2025 esteve acima da média em 95% do continente europeu e a temperatura da superfície do mar, na região europeia, foi a mais elevada de sempre, revela um relatório divulgado esta quarta-feira.
Mais de 3.000 episódios de violência contra profissionais do SNS foram registados no ano passado, uma subida de 848 casos relativamente 2024, destacando-se a agressão psicológica, que representa mais metade das situações, segundo dados hoje divulgados.
O Tribunal de Évora condenou hoje um homem a 20 anos e meio de prisão efetiva e outro a 12 anos também de prisão efetiva por roubos e sequestros em agências bancárias de várias localidades do país.
O Ministério Público (MP) acusou um psicólogo de mais de 60 crimes de abuso sexual e 16 de pornografia de menores, praticados no exercício da sua profissão em Alenquer, segundo a acusação a que a Lusa teve hoje acesso.
A Ordem dos Médicos alertou esta terça-feira, 28 de abril, para as barreiras e atrasos no acesso à saúde de quem tem doenças alérgicas e apontou a desatualização da rede de referenciação hospitalar e a não comparticipação da imunoterapia com alergénicos.
A Operação Marquês começa a desfazer-se esta semana com a prescrição dos crimes de corrupção ligados a Vale do Lobo, num dos primeiros grandes recuos do processo.
As viagens turísticas dos residentes em Portugal aumentaram 13,7% em 2025, para um "máximo histórico" de 26,049 milhões, superando pela primeira vez os níveis pré-pandemia (24,5 milhões de viagens em 2019), divulgou hoje o INE.
Dois homens voltaram a assaltar a mesma mercearia em Lisboa no espaço de 24 horas, mas acabaram travados pela PSP com bacalhau, polvo e vários artigos furtados na posse.
A associação de defesa do consumidor Deco Proteste fez várias recomendações, um ano depois do pagamento, nomeadamente a criação e manutenção de um ‘kit’ de emergência, com bens essenciais e estojo de primeiros socorros.
As temperaturas máximas vão descer significativamente na quarta-feira podendo ser de menos 08 graus Celsius em algumas regiões do continente, quebrando-se a possibilidade de uma onda de calor, segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).