Diretores de unidades de cuidados continuados recusam ser responsaveis por utentes sem familia

Os diretores de unidades de cuidados continuados queixam-se de que a justiça os obriga a ficar responsáveis por utentes que não têm familia ou capacidade cognitiva para decidir, prejudicando o seu trabalho e vida pessoal, e exigem outra solução.

© D.R

Em declarações à Lusa, Dulce Vargas, diretora técnica da Cercitop, uma instituição de Sintra, no distrito de Lisboa, explicou que rejeitou uma destes casos, pois já estava responsável em nome individual por um outro utente, mas foi obrigada pelo tribunal a aceitar.

“Nunca me tinha acontecido. Neste momento, se o tribunal me mandar fazer o levantamento de bens desta utente tenho de ir eu fazer, se for preciso ir a casa do utente fechar contas de luz e gás tenho de ser eu a tratar”, lamentou, contando que, há uns anos, foi de férias e até para a sua morada fiscal o tribunal enviou cartas registadas.

Segundo explicou, para que estes utentes – sem família e sem capacidade cognitiva para tomar uma decisão – sejam sinalizados para um lar, por exemplo, é preciso uma assinatura de alguém que seja responsável pela pessoa e, para isso, avança-se com processo de maior acompanhado.

Acontece que, sem que os diretores técnicos aceitem, os tribunais estão a decidir impor a estes profissionais a responsabilidade em nome individual por estes utentes: “Neste último caso, de que recebi agora a sentença, eu recusei e o tribunal não aceitou e impôs a decisão”.

“Acho mesmo que até é uma invasão da privacidade. Então eu tenho de andar a tratar do levantamento de bens do utente, ir lá a casa se for preciso p tratar das contas de luz e gás e ver o que o utente tem. Recuso-me. Acho um abuso”, contestou Dulce Vargas, dizendo que vai entregar o caso ao departamento jurídico da instituição para ver que solução encontra.

Reconheceu que é importante a instituição poder ter acesso à pensão destes utentes, sob pena de não receberem a mensalidade devida, mas lembrou: “Isto é uma instituição que presta cuidados de saúde. E por um período de tempo. Não estamos a falar de uma resposta social”.

“Neste caso, se eu sair daqui e for para outra instituição, levo o utente agregado a mim até que o processo transite para o novo responsável. Não faz qualquer sentido”, observou.

Em declarações à Lusa, o presidente da Associação Nacional dos Cuidados Continuados (ANCC), José Bourdain, contou que, na última assembleia geral, vários colegas se queixaram de ter mais de uma dezena de pessoas a cargo.

“Estamos neste dilema: de início, foram os diretores das unidades que quiseram fazer parte e ser responsáveis por estes doentes, porque era a única forma que nós tínhamos de receber o dinheiro que nos era devido. Mas agora estão a recusar, quando conseguem, porque se torna insustentável”, disse.

Considera mesmo que a situação, nalguns casos, “é desumana” e questiona se os tribunais não se estão a basear “numa legislação de há muitos anos que diz que as pessoas com deficiência, por exemplo, que não têm família, ficam a cargo da instituição onde estão internados”.

Recordou que a rede de cuidados continuados é “uma situação de transição” e sublinhou: “O diretor da unidade, que é uma pessoa que tem uma enorme responsabilidade para gerir a unidade em si, tem uma entidade patronal que lhe paga um salário para fazer esse trabalho”.

“Se depois a pessoa passa o tempo todo a resolver questões dos doentes, como seja tratar de contas bancárias, ir aos correios, a ir a casa das pessoas, por ordem do tribunal, fazer levantamento dos bens e fazer leituras do gás, da luz e da água, não conseguem fazer o seu trabalho”, acrescentou.

Como solução, José Bourdain vê duas hipóteses: ou se cria legislação específica que delegue, não no diretor, mas na instituição a responsabilidade pelo utente, “mas o Estado paga isso” – pois “será preciso contratar pessoas para essas tarefas” -, ou o Estado assume a responsabilidade, criando um departamento “seja através do Ministério da Justiça, ou do Ministério Público”.

“Esta seria a solução ideal (…) com um juiz a garantir toda a legalidade da situação e uma série de funcionários públicos que se dedicassem a este trabalho”, insistiu.

Últimas do País

O procurador-geral da República (PGR), Amadeu Guerra, revelou hoje que estão em curso três inquéritos, um processo no Tribunal de Contas e uma investigação de natureza administrativa sobre casos que envolvem o ministro Luís Neves.
Um homem de 26 anos suspeito de homicídio no Brasil foi detido, em Lisboa, durante uma operação realizada hoje de manhã, anunciou a Polícia Judiciária (PJ).
Vítimas e famílias afetadas pelo descarrilamento do elevador da Glória revelaram, numa carta aberta, que se sentiram "esquecidas" pela Câmara de Lisboa ao longo deste ano, referindo que "o único contacto direto" foi para a inauguração hoje do memorial.
A Polícia de Segurança Pública intercetou em flagrante dois homens, de 28 e 39 anos, suspeitos de tráfico de estupefacientes. A operação permitiu apreender milhares de doses de haxixe, cocaína e heroína, uma pistola, dezenas de munições e 14.800 euros em dinheiro.
Os professores que adiem a aposentação para continuar a ensinar terão uma remuneração extra de 750 euros mensais, mas apenas se não houver docentes que possam garantir essas aulas, segundo o diploma hoje publicado.
O homem suspeito de matar a mulher, ambos de nacionalidade britânica, na terça-feira, no corredor de um hotel em Albufeira, no distrito de Faro, ficou hoje em prisão preventiva, disse à Lusa fonte da GNR.
Um homem de 57 anos foi detido pela PSP e ficou em prisão preventiva por suspeitas de maus-tratos psicológicos e físicos à mulher, incluindo ameaças de morte, em Évora, divulgou hoje o Ministério Público (MP).
As 9,72 bitcoins foram transferidas para uma carteira criada no âmbito da apreensão e desapareceram em quatro movimentos. O casal acabou absolvido, o tribunal mandou devolver os ativos e, quase oito anos depois, continua por esclarecer quem lhes conseguiu aceder.
A Unidade de Controlo Costeiro e de Fronteiras (UCCF) da GNR apreendeu hoje em Setúbal cerca de 400 quilos de cocaína e deteve um homem suspeito de envolvimento numa alegada operação de desembarque de droga, informou aquela polícia.
Todas as semanas a Guarda Nacional Republicana (GNR) interceta cerca de 280 condutores com taxas de alcoolemia consideradas crime, num total acumulado de 8.438 detenções entre 01 de janeiro e 31 de julho.